domingo, 3 de janeiro de 2021

CONSUMO, CONSUMISMO E OBSOLETISMO PLANEJADO

 


            No vídeo “A História das Coisas”, sucesso na internet visto por milhões de pessoas de todo o mundo, são apresentados os conceitos de obsolescência planejada e obsolescência perceptiva. A obsolescência planejada foi desenvolvida pelas indústrias para que as coisas se tornem inúteis tão rápido quanto possível. A tecnologia dos computadores, por exemplo, muda tão rápido que em poucos anos se torna quase um impedimento para a comunicação. A obsolescência perceptiva é fabricada pelas empresas por meio da publicidade e da propaganda e também da moda. Os indivíduos são bombardeados com publicidade e são convencidos de que valem o quanto consomem. Os consumidores jogam fora coisas que ainda são perfeitamente úteis. Para que troquem suas coisas por outras novas sem que precisem, as empresas mudam apenas a aparência das coisas, fazendo daqueles que não estão na moda socialmente inferiores. Uma se dá na esfera da produção e outra se dá na esfera do consumo.

            Esse vídeo de Annie Leonard, cientista ambiental que trabalhou com organizações como o Greenpeace e dirige o Projeto História das Coisas, também fornece outro conceito, o de exteriorização dos custos. Os produtos a preços baixos para os consumidores têm esses preços porque os trabalhadores que os produzem e vendem ganham pouco e têm suas condições de saúde e o meio ambiente onde vivem deteriorados. Isso é exteriorização dos custos.

            No livro “A História das Coisas”, baseado no documentário, é exposta a diferença entre consumo e consumismo. Diz a autora: “Enquanto consumo significa adquirir e utilizar bens e serviços para atender às necessidades, consumismo refere-se à atitude de tentar satisfazer carências emocionais e sociais através de compras e demonstrar o valor pessoal por meio do que se possui”. E há ainda o superconsumismo, que “é quando utilizamos recursos além dos necessários e dos que o planeta pode suprir”.

            Marcuse foi um filósofo que refletiu sobre a nossa sociedade. Para ele, “o obsoletismo planejado” e “a produção e consumo do supérfluo” são traços fundamentais da sociedade capitalista desenvolvida na época contemporânea. Na nossa sociedade, “a mercadoria que tem de ser comprada e usada traduz-se em objetos da libido”. Desse modo, a vida humana e todas as suas manifestações vitais, físicas e mentais, são marcadas pelo valor de troca e até o seu desejo e sua vontade são coisas ou podem ser projetados em coisas que são compradas e vendidas. Além disso, a elevação do padrão de vida a níveis nunca antes experimentados tornou uma necessidade objetiva um elevado padrão de vida. Isso quer dizer que as pessoas se tornaram prisioneiras de sua situação social, escravas de suas coisas. Para completar, os meios de comunicação de massa martelam nas cabeças dos indivíduos aquilo que eles devem desejar. A própria identidade do indivíduo contemporâneo é construída pela massificação de marcas e exemplares da arte de entretenimento.

            E qual é o resultado prático disso tudo na vida das pessoas? No livro “A História das Coisas” podemos encontrar parte da resposta para essa pergunta. De acordo com Annie Leonard e Ariane Conrad, autoras do livro, em 2005, os chamados gastos pessoais, que representam o valor destinado a bens e serviços em uma família, alcançaram 24 trilhões de dólares no mundo todo. Nesse mesmo ano, só os americanos, tinham 832 bilhões de dólares em dívidas de cartões de crédito. De acordo com dados do censo dos Estados Unidos: “As dívidas dos consumidores aumentam numa taxa duas vezes maior do que suas rendas”.

            Sendo assim, além dos impactos ambientais negativos, o consumismo tem gerado o superendividamento dos consumidores e das famílias, que acumulam dívidas que se tornam impagáveis. E isso é uma realidade também no Brasil. Os gastos com o pagamento de dívidas se somam às contas de luz, água, gás, alimentação, transporte, moradia e superam a renda mensal. Superar o consumismo depende de nós. A partir de uma atitude de buscar a valorização do que é essencial, diferenciar o que é básico daquilo que é supérfluo e elencar objetivos de curto, médio e longo prazo para a nossa vida. Já o obsoletismo planejado é algo um pouco mais complexo porque se situa no âmbito da produção. Portanto, nesse caso, cabe a nós, coletivamente, como consumidores, trabalhadores, investidores, cidadãos cobrar das grandes empresas uma atitude responsável e honesta, cobrar responsabilidade social e responsabilidade ambiental. Não somos obrigados a ser clientes ou a financiar empresas que não tenham compromisso com o planeta e com a sociedade. Exigir essa responsabilidade das empresas também é exercer a cidadania.

sábado, 2 de janeiro de 2021

LIÇÕES DO LIVRO O HOMEM MAIS RICO DA BABILÔNIA

 


 

            “Garantam um rendimento para o futuro. Olha para os velhos e lembrem-se que, nos dias vindouros, também serão idosos. Por isso, invistam o vosso tesouro com a máxima cautela para que não se perca.”

            “Orçamentem as vossas despesas para terem moedas capazes de pagar as vossas necessidades, pagarem os vossos prazeres e satisfazerem os vossos desejos importantes, sem com isso gastarem mais de nove décimos dos vossos ganhos.”

            “A riqueza de um homem não está nas moedas que ele tem na sua carteira; é o rendimento que ele constrói, o fluxo de ouro que flui continuamente para a sua carteira e que a mantém sempre em crescimento.”

(O Homem Mais Rico da Babilônia, de George S. Clason)

           

            O livro “O Homem Mais Rico da Babilônia” é uma coletânea de parábolas ambientadas na antiga Babilônia escritas por George Clason a partir de 1926, que foram distribuídas inicialmente na forma de panfletos em bancos e companhias de seguros dos Estados Unidos. George Samuel Clason escreveu aquele se tornaria o mais antigo e famoso livro sobre finanças pessoais. Fonte: Wikipédia.

             Em uma parte do livro são descritas o que o autor apresenta em uma de suas parábolas como “As Cinco Leis de Ouro”. Em certo momento ele descreve o que seria a “Segunda Lei do Ouro”:

            “O ouro traz contentamento ao sábio proprietário que lhe encontra um fim rentável, multiplicando-o tal como os rebanhos no campo.

            O ouro, de fato, é um trabalhador voluntário. Está sempre pronto a multiplicar-se quando a oportunidade surge. Para qualquer homem que tenha um armazém de ouro, a oportunidade apresenta-se para fazer uma utilização rentável dele. Ao longo dos anos, multiplica-se de forma surpreendente.”

            Guardando uma parte do seu dinheiro poderá ter recursos para fazê-lo multiplicar, investindo onde seja mais rentável. Desse modo, ensina o texto, além de poupar um décimo do dinheiro que ganhar com o seu trabalho é preciso saber investi-lo onde der melhores rendimentos, lembrando de colocar os recursos financeiros obtidos com muito esforço em investimentos seguros. Em uma passagem do texto diz o seguinte: “O primeiro princípio sólido do investimento é a segurança”. Em outra parte: “Um baixo retorno e um retorno seguro são muito mais desejáveis do que o risco”. Portanto, nada de buscar ganhos fáceis e rápidos. Essa é a maneira certa de perder dinheiro. E ninguém quer ver ir embora o dinheiro conquistado com esforço e com muito trabalho, não é mesmo?

            Outro ponto fundamental que é abordado no livro é o papel do estudo, do conhecimento acerca de finanças pessoais, de como ganhar e não perder dinheiro, e da busca por aperfeiçoamento no seu próprio trabalho. Na parte do livro “Aumente a sua capacidade de ganhar dinheiro” diz o seguinte: “Quanto mais sabedoria adquirimos, mais podemos ganhar. O homem que procura aprender mais sobre o seu ofício será ricamente recompensado”. Sendo assim, estudar e ser melhor naquilo que se faz ainda é o melhor investimento. É o que pode garantir efetivamente o seu sustento e de sua família e garante a possibilidade de multiplicar o dinheiro obtido com o trabalho honesto em atividade lícita, proporcionando segurança e tranquilidade para a sua família.

            É importante ainda lembrar que não há nada de errado em querer ganhar mais dinheiro, mas é preciso evitar a ganância e a busca de ganhos rápidos. É preciso buscar alcançar objetivos e desejos mais realistas e a partir daí ir avançando ao invés de simplesmente desejar ser rico. Como diz o texto: “Este é o processo pelo qual a riqueza se acumula: primeiro em pequenas quantidades, depois em grandes quantidades à medida que o homem aprende e se torna mais capaz”.

            Se pudéssemos extrair algumas dicas para ter uma vida próspera, a partir do que ensina o livro “O Homem Mais Rico da Babilônia”, uma delas seria POUPAR 10% DOS GANHOS. Poupando, nem que seja uma parte pequena do salário, é possível constituir uma reserva de emergência e ter um dinheiro disponível para investimentos mais rentáveis para gerar um futuro melhor. Outro ponto fundamental é CONTROLAR AS DESPESAS, FAZENDO UM ORÇAMENTO E GASTANDO NÃO MAIS QUE NOVE DÉCIMOS DO RENDIMENTO. Outra lição é MULTIPLICAR A RIQUEZA COM INVESTIMENTOS RENTÁVEIS.

            Uma das coisas mais importantes é ASSEGURAR RENDIMENTOS FUTUROS, PLANEJANDO COM ANTECEDÊNCIA AS NECESSIDADES QUE TERÁ NA VELHICE E A PROTEÇÃO DA FAMÍLIA. Apesar disso, buscar prosperidade na vida não pode se tornar um tipo de escravidão. É preciso ter equilíbrio. Como diz no próprio livro:

            “Aproveitem a vida enquanto estiverem aqui. Não se esforcem demasiado e não tentem poupar muito dinheiro. Se um décimo de tudo o que ganham é o máximo que conseguirem guardar confortavelmente, tenham gosto em poupar esse quinhão”

            Isto é, deve-se poupar na medida das suas possibilidades; pensar no futuro, mas sem sacrificar inteiramente o presente em função dele. O mais importante é viver de acordo com a sua renda. Como escreveu Clason em “O Homem Mais Rico da Babilônia”: “Vivam de forma diferente de acordo com os vossos rendimentos e não se deixem enganar pelo medo de gastar. A vida é boa e a vida é rica em coisas que valem a pena e em coisas para desfrutar”.

            Com planejamento, equilíbrio e objetivo na vida é possível ter uma vida financeira equilibrada e alcançar prosperidade na vida pessoal e para as pessoas próximas e até mesmo para a comunidade.

             

           

 

EDUCAÇÃO FINANCEIRA: CONSUMO PLANEJADO

 


            Em 2013 o Banco Central do Brasil lançou um material de educação financeira de distribuição gratuita intitulado “Caderno de Educação Financeira – Gestão de Finanças Pessoais (Conteúdo Básico)”. O texto integral pode ser encontrado no site do Banco Central.

            Um dos conceitos abordados no caderno de educação financeira do Banco Central é o de “troca intertemporal”. A respeito desse termo relativo às opções de consumo no tempo, pode-se ler o seguinte: “Perceba que possuímos, basicamente, duas opções ao lidar com o consumo no tempo. Essa é a escolha fundamental quando o assunto é gestão financeira: temos a opção de usufruir agora e pagar depois, assumindo uma posição devedora, ou seja, pagando juros; ou podemos optar por pagar agora e usufruir depois e assumir uma posição credora, recebendo juros". Considerando o fenômeno da troca intertemporal, cada pessoa, ao fazer suas escolhas, deve avaliar se é mais vantajoso pagar antes (isto é, poupar) para consumir depois ou consumir antes e pagar mais caro depois (com juros). Isso vai depender das necessidades de cada um, mais ou menos urgentes, e ambas as opções podem ser feitas corretamente desde que sejam feitas de forma planejada. Caso contrário, corre-se o risco de gastar muito mais do que o necessário e ainda se endividar e limitar suas possibilidades de consumo no presente e no futuro.

            O ideal é consumir de forma planejada sempre que possível. De acordo com o texto: “Consumo planejado é fazer mais com a mesma quantidade de recursos”. Ou seja, ao consumir de forma planejada é possível fazer o seu dinheiro render mais.

            Vantagens de planejar o consumo:

1 – Controlar o endividamento pessoal;

2 – Auxiliar na preservação e no aumento do patrimônio;

3 – Eliminar gastos desnecessários;

4 – Utilizar os juros a seu favor;

5 – Maximizar os recursos disponíveis.

            E como é possível maximizar os recursos disponíveis? A resposta é: pesquisando preço, negociando descontos, dentre outras atitudes de valorizar o seu dinheiro.

 

USO DO CRÉDITO: O VALOR DO DINHEIRO NO TEMPO E A TROCA INTERTEMPORAL

 

            O crédito é uma fonte adicional de recursos que não são seus, mas obtidos de terceiros (bancos, financeiras, cooperativas de crédito e outros), que possibilita a antecipação do consumo para a aquisição de bens ou contratação de serviços” (Banco Central do Brasil)

           

            Na publicação “Caderno de Educação Financeira – Gestão de Finanças Pessoais”, do Banco Central do Brasil, é apresentada a definição de crédito e outros conceitos relacionados ao assunto, como o conceito de juros. Os juros são o aluguel do dinheiro no tempo. Quando se compra um produto qualquer a prazo se recebe um benefício antecipado para pagar depois. Por usufruir de algo pago com dinheiro de terceiros se paga juros àquele que empresta. Os juros podem ser simples ou compostos. Os juros simples “são aqueles pagos somente sobre o capital principal”; os juros compostos são os “juros sobre juros”.

            As vantagens do uso do crédito são: 1 – antecipar o consumo; 2 – atender a emergências; 3 – aproveitar oportunidades. As desvantagens do uso do crédito são: 1 – custo da antecipação do consumo com o uso do crédito implica pagamento de juros; 2 – risco de endividamento excessivo; 3 – limite de consumo futuro. Como o crédito tomado no presente deve ser pago no futuro, isso reduz as disponibilidades financeiras futuras para o consumo, uma desvantagem que traduz o fenômeno das trocas intertemporais (usufruir agora e pagar depois, assumindo uma posição devedora, pagando o produto ou serviço com juros ou poupar e usufruir depois, assumindo uma posição credora, recebendo juros).

sábado, 9 de março de 2019

DESCOBRIMENTO DO BRASIL?



O historiador Gilberto Cotrim, em seu livro didático Historiar, para o 7° ano, trata da questão da chegada dos portugueses ao Brasil, da discussão do uso dos termos “descobrimento” ou “conquista”. Em resposta a essa pergunta ele escreve: “Segundo alguns historiadores, descobrimento é uma palavra que exalta os europeus, omite a violência presente no ato de conquistar e ignora a presença de todos os povos e culturas que já existiam no continente americano”. Mais à frente, tratando da luta indígena no Brasil, ele relata o episódio das manifestações dos indígenas contra a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil:
“Em 22 de abril de 2000, o governo organizou uma festa em Porto Seguro, na Bahia, para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil.
Os indígenas brasileiros recusaram-se a participar da festa. Para eles, o que aconteceu não foi um descobrimento, mas a invasão de suas terras. Eles queriam deixar claro que não havia motivo para comemoração. Queriam mostrar aos outros brasileiros que os indígenas contavam a história de outra forma.
Assim, representantes dos povos indígenas saíram de vários pontos do Brasil em direção à Bahia. Mas a polícia impediu alguns protestos contra a festa oficial. Muitos indígenas foram presos e outros se machucaram no confronto”.
No Carnaval de 2019, a escola de samba Mangueira trouxe esse tema para a avenida. Com o enredo “História pra ninar gente grande’, fez um desfile apresentando os heróis da resistência da história do Brasil, os anônimos, os excluídos e aqueles que não fizeram parte, durante muito tempo, da história oficial. Versos como “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento” e “Deixa eu te contar/ A história que a história não conta”, que fizeram deste samba-enredo um dos mais críticos dos últimos carnavais populares do Rio de Janeiro, dialogam com a mobilização que os indígenas protagonizaram no ano 2000 contra a história oficial que naquele momento excluía sua importância, sua resistência e o seu sofrimento. Um samba-enredo que, ao contrário do que se fez por décadas, exaltou “Mulheres, tamoios, mulatos”, reivindicando o lugar dos negros, das mulheres e dos indígenas na história do Brasil.
Sendo assim, comemorar “o descobrimento do Brasil” é ignorar a história dos indígenas que viviam antes da chegada dos europeus e dos africanos que foram trazidos como escravizados, e sua longa história de resistência à invasão de suas terras e à sua escravidão.

MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA NO BRASIL



Nise da Silveira e Marielle Franco foram duas grandes mulheres brasileiras.
A primeira foi pioneira da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Nise da Silveira criou a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, bairro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Os pacientes desenvolviam atividades artísticas nos ateliês organizados por ela. Nise da Silveira fundou no hospital psiquiátrico o Museu de Imagens do Inconsciente, com o acervo produzido por seus pacientes. Esse acervo se tornou um patrimônio científico e cultural reconhecido mundialmente e é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Marielle Franco foi uma defensora de direitos humanos eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro que foi assassinada em março de 2018. O caso Marielle se tornou destaque da maior campanha de direitos humanos do mundo, organizada pela Anistia Internacional. A campanha “Escreva por Direitos”, da ONG Anistia Internacional, teve, em 2018, o foco em mulheres, gênero e em defensoras de direitos humanos. A campanha durou 5 meses, tendo início oficialmente em 10 de outubro de 2018 e terminando no dia 8 de março de 2019, Dia Internacional da Mulher. A campanha “Escreva por Direitos” mobiliza ativistas e apoiadores da Anistia Internacional a escreverem cartas e realizarem atividades em defesa de pessoas perseguidas, ameaçadas ou presas injustamente. Marielle também foi homenageada no Carnaval do Rio de Janeiro deste ano (2019) pela escola de samba campeã, Mangueira, com seu nome em um dos versos do samba: “Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. O samba-enredo destacava o papel das mulheres, dos negros e dos índios na construção do Brasil e de sua resistência ao racismo, à discriminação, à escravidão e ao autoritarismo.
Esses são exemplos de mulheres brasileiras que se destacaram na ciência e na política e que contribuíram para a democracia no país.

O CARNAVAL NO RIO DE JANEIRO



O Carnaval é uma festa popular que tem suas origens na Idade Média europeia, mas que se tornou um fenômeno de massas no Brasil contemporâneo. O Carnaval é a vida festiva do povo; uma espécie de liberação do cotidiano dominado pelas hierarquias sociais e pelo trabalho alienado, o trabalho realizado unicamente para garantir o que comer, para pagar as contas.
O Carnaval é parte da cultura popular. Na Idade Média, os carnavais populares eram o oposto das festas oficiais da Igreja e do Estado feudal, dos grupos sociais dominantes e das instituições que representavam o seu poder. Na festa de Carnaval reinava um contato livre e familiar entre os indivíduos, de acordo com o estudioso Mikhail Bakhtin. Para Bakhtin, isso fazia parte da “visão carnavalesca de mundo”. Nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, é comum também essa informalidade entre aqueles que brincam o Carnaval, rompendo com as barreiras das hierarquias sociais predominantes no mundo do trabalho e na vida social nos outros dias do ano. O Carnaval é jogo, é lúdico, é a festa da liberdade; nos dias em que dura o Carnaval um servo pode ser um rei, um homem da lei pode ser um pirata, toda mulher pode ser uma rainha na avenida, um homem tímido pode ditar o ritmo da festa integrando a bateria de um bloco de carnaval ou de uma escola de samba. A lógica do carnaval é oposta à lógica da produtividade que domina o mundo do trabalho; é a lógica das coisas ao avesso. São dias de alegria em que pessoas comuns podem se fantasiar e brincar de ser outra pessoa, até mesmo outros seres, bruxos, bruxas, super-heroínas e super-heróis.
No Rio de Janeiro o Carnaval é marcado pela cultura negra, com a forte presença do samba. A cultura negra tem grande importância na vida cultural da população do Rio de Janeiro. O samba carioca é hoje patrimônio cultural imaterial nacional. O Dossiê do IPHAN “Matrizes do Samba no Rio de Janeiro” apresenta o samba como “fruto de ricas tradições africanas e afro-brasileiras”. O samba carioca se originou na Pedra do Sal, no Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, no início do século XX. Mais tarde, a população negra marginalizada pela política do prefeito Pereira Passos, que promoveu a remoção da população daquela região com sua reforma urbana, passou a se reunir na casa da baiana Tia Ciata, na região da Cidade Nova. Os sambas-enredo, marca do Carnaval do Rio de Janeiro, eram vistos pelo compositor Ismael Silva como formas de comunicação com as massas. O samba-enredo é instrumento de transmissão das tradições africanas e da cultura popular, de educação do povo e uma forma de contato da maioria da população com sua própria história. Resumindo, tem um caráter não só de divertimento, mas pedagógico.
Os temas dos sambas-enredo são os mais variados. A escola de samba Vila Isabel já homenageou Zumbi dos Palmares e cantou a abolição da escravidão no samba-enredo Kizomba, festa da raça (1988): “Valeu Zumbi!/ O grito forte dos Palmares/ Que correu terras, céus e mares/ Influenciando a abolição/ Zumbi valeu!/ Hoje a Vila é Kizomba/ É batuque, canto e dança/ Jongo e maracatu”. Tratando da exploração de nossos dias, a escola de samba Paraíso do Tuiuti em samba-enredo mais recente, Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? (2018), trouxe os seguintes versos: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu Paraíso é meu bastião/ Meu Tuiuti, o quilombo da favela/ É sentinela na libertação”. A escola de samba Império Serrano já cantou em homenagem à luta dos sem-terra no samba-enredo E verás que um filho teu não foge à luta (1996): “O povo diz amém/ É porque tem/ Um ser de luz a iluminar/ O moderno Dom Quixote/ Com mente forte vem nos guiar/ Um filho do verde esperança/ Não foge à luta, vem lutar/ Então verás um dia/ O cidadão e a real cidadania/ Quero ter a minha terra, ô ô ô/ Meu pedacinho de chão, meu quinhão/ Isso nunca foi segredo/ Quem é pobre tá com fome/ Quem é rico tá com medo [...] Eu me embalei p´ra te embalar/ No balancê, balancear/ Vem na folia/ Chegou a hora de mudar/ O meu Império vem cobrar democracia”. Mas não é só de crítica social que são feitos os grandes sambas-enredo. Carnaval é jogo, é brincadeira, é alegria e a escola de samba União da Ilha já trouxe isso tudo para o desfile de escolas de samba com um samba-enredo sobre a infância e a brincadeira, o samba É Brinquedo, É Brincadeira, a Ilha vai levantar poeira (2014): “Hoje a Ilha vem brincar, amor!/ Vem sorrindo cirandar que eu vou/ Dar meia volta, volta e meia no seu coração/ Ser criança não é brinquedo não!/ Levanta a poeira/ Vem nessa brincadeira que eu quero ver/ Nesse baú da memória/ São tantas histórias é só escolher [...] Perder ou ganhar, ganhar ou perder/ Se conectar, jogar e aprender/ Um super-herói pode ser você”. A União da Ilha conta ainda com outros dois grandes sambas – É Hoje, de 1982, e O Amanhã, de 1978. O samba É Hoje celebra a própria festa do Carnaval e apresenta elementos da cultura negra e das tradições africanas e afro-brasileiras: “A minha alegria atravessou o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ No maior show da Terra/ Será que eu serei/ o dono desta festa um rei/ No meio de uma gente tão modesta/ Eu vim descendo a serra/ Cheio de euforia para desfilar/ O mundo inteiro espera/ Hoje é dia do riso chorar/ Levei o meu samba/ Pra mãe-de-santo rezar/ Contra o mau olhado/ Carrego o meu Patuá [...] É hoje o dia da alegria e a tristeza/ Nem pode pensar em chegar”. E diz o samba O Amanhã: “Como será o amanhã/ Responda quem puder/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser/ A cigana leu o meu destino/ Eu sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o mal-me-quer/ Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz/ Sempre feliz”. Nos sambas-enredo sempre são cantadas a liberdade e a alegria e mesmo a crítica social vem em ritmo de festa em oposição à seriedade que domina os demais dias do ano, no trabalho, na política e nas relações sociais mais formais.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O MITO DE PROMETEU: DO FOGO NASCEM OS HOMENS



Contavam os gregos antigos que no início dos tempos, os seres humanos e os deuses viviam juntos e os humanos não conheciam as doenças, a necessidade do trabalho, a velhice e a morte. O titã Prometeu foi encarregado do sacrifício que determinaria o tipo de vida próprio dos homens e o tipo de vida próprio dos deuses. Nesse sacrifício, Prometeu tentou favorecer os homens dando-lhes a melhor parte do boi abatido, o que era comestível no animal sacrificado, mas no momento em que os homens comeram a carne de um bicho passaram a sentir fome e a necessitar de alimento. Zeus, o rei dos deuses, ficou furioso com Prometeu por ter o titã tentado enganá-lo em favor dos homens; por isso, como vingança, deixou de conceder com seus raios o fogo celeste à humanidade.
Zeus reinava no monte Olimpo, a morada dos deuses. Os deuses olimpianos chegaram ao poder depois de vencer a guerra contra os titãs, uma raça de gigantes que habitava a terra antes da criação do homem. Os titãs eram os deuses primitivos e aqueles que foram derrotados por Zeus na luta pelo poder foram aprisionados no Tártaro, uma prisão subterrânea abaixo do mundo dos mortos, o reino de Hades. Outros titãs foram castigados de outras maneiras, como Atlas, que foi condenado a sustentar o céu em seus ombros. Zeus repartiu com seus irmãos o domínio do universo, ficando Poseidon com o domínio do mar e Hades com o domínio do mundo dos mortos. O poderoso deus dos raios ficou com o domínio do céu.
O titã Prometeu se rebelou contra a autoridade de Zeus e roubou o fogo dos deuses no céu para dá-lo aos homens. Os humanos passaram a ser os únicos animais na terra a compartilhar com os deuses a posse do fogo. De todos os animais na Terra, os homens eram os mais fracos, pois, no momento da criação, uns animais ganharam agilidade; outros, força; outros, asas; outros, garras; e nada restou para o ser humano. Mas com o dom obtido pelo crime de Prometeu contra a vontade do rei dos deuses, o homem se tornou capaz de criar armas, de se aquecer no frio e de dominar os outros animais.
A aventura de Prometeu, que foi até o céu só para roubar o senhor do universo e favorecer novamente os homens não ficou sem punição. Dessa vez, Zeus puniu mais uma vez os homens, e agora com uma punição definitiva, e castigou severamente o titã rebelde. Zeus criou Pandora, a primeira mulher, como forma de punir os homens. Pandora era curiosa e ao se deparar com um jarro fechado resolveu abri-lo, mas nesse jarro estavam guardados todos os males que até então não existiam entre os humanos; havia pragas para o corpo e para o espírito e a vingança, a inveja, as fadigas, as doenças, o trabalho árduo, a velhice e a morte se espalharam por toda a parte; o sofrimento e a morte se tornaram parte da condição humana. Quando Pandora fechou o jarro somente a esperança permaneceu lá no fundo e até hoje os homens vivem com esperança e medo sem saber sobre o futuro, tentando adivinhar o que pode acontecer.




Rafael Rossi

DEUSES, HERÓIS E SUPER-HERÓIS



O universo de deuses e heróis da mitologia grega serviu de inspiração para as narrativas que serão apresentadas em sala de aula. Para os gregos antigos, a imortalidade traçava uma fronteira entre os deuses e os homens. Os deuses gregos eram imortais. De acordo com o historiador Jean-Pierre Vernant, “é pela voz dos poetas que o mundo dos deuses, em sua distância e sua estranheza, é apresentado aos humanos”. As narrativas de Homero e de Hesíodo sobre os seres divinos funcionaram como modelos de referência para os autores que vieram depois deles. As obras da poesia épica serviram como instrumentos de conservação e comunicação do saber. Diz Vernant: “A atividade literária, que prolonga e modifica, pelo recurso à escrita, uma tradição antiquíssima de poesia oral, ocupa um lugar central na vida social e espiritual da Grécia”. Tanto a poesia épica quanto os contos populares estiveram ligados no início a uma tradição oral. As histórias mais antigas já contadas têm suas origens em sociedades que ainda não conheciam a escrita. E até hoje, o ato de contar histórias, reais ou lendárias, se faz por meio da oralidade e na presença do outro, na maioria das vezes.
As histórias mais famosas de todos os tempos foram (e são ainda) as histórias de heróis. Vernant diz que os heróis “pertencem à espécie dos homens e, como tais, conheceram os sofrimentos e a morte. Mas, por toda uma série de traços, distinguem-se, até na morte, da multidão dos defuntos comuns. Viveram numa época que constitui, para os gregos, o ‘antigo tempo’ já acabado e no qual os homens eram diferentes daquilo que são hoje: maiores, mais fortes, mais belos”. Alguma semelhança com os nossos super-heróis de hoje? Talvez uma: nas nossas histórias de super-heróis, eles são nossos contemporâneos. Mas, tirando isso, são como os heróis da mitologia grega, belos, fortes, mais inteligentes e melhores que os demais mortais em vários aspectos. Continuando sobre esse tema do herói, escreve Vernant: “Mesmo sendo homens, sob vários pontos de vista esses ancestrais aparecem mais próximos dos deuses, menos separados do divino do que a humanidade atual. Nesse tempo passado, os deuses ainda se misturavam de bom grado aos mortais, convidavam-se para a casa destes, comiam às suas mesas em refeições comuns, insinuavam-se até mesmo às suas camas para unir-se a eles e, no cruzamento das duas raças, a perecível e a imortal, gerar belos filhos. Os personagens heroicos cujos nomes sobreviveram e cujo culto era celebrado em seus túmulos apresentam-se muito frequentemente como o fruto desses encontros amorosos entre divindades e humanos dos dois sexos”. Desse modo, os chamados semideuses eram filhos de mortais com deuses e deusas. Alguns homens também podiam ser elevados ao status de herói. Além das figuras lendárias, dos primeiros fundadores de colônias e de personagens que adquiriram um valor simbólico exemplar aos olhos dos habitantes de uma determinada cidade grega, havia também heróis anônimos, como escreve Vernant: “Existem heróis anônimos, designados apenas pelo nome do lugar onde foi estabelecido seu túmulo; é o caso do herói de Maratona”.
A Mulher-Maravilha talvez seja a super-heroína mais inspirada nas narrativas da mitologia grega. No livro de Matthew Manning, a Mulher-Maravilha é descrita assim: “Metade humana e metade deusa, Mulher-Maravilha é filha de Zeus e Hipólita – rainha das Amazonas – e foi treinada desde o seu nascimento para ser uma representante de Themyscira para o mundo humano”. Quer dizer, a super-heroína é um exemplo clássico de mito recriado para a modernidade, é uma atualização do mito das amazonas para a época contemporânea. Não foi por acaso que a Mulher-Maravilha se tornou um símbolo feminista nos dias de hoje. Ela faz questão de lembrar que as mulheres não são o sexo frágil que o discurso dominante afirma. As míticas amazonas são guerreiras habilidosas e corajosas. A semideusa é o maior exemplo de adaptação dos mitos gregos para as narrativas heroicas de nosso tempo.
Mas os super-heróis do presente não permaneceram completamente presos aos paradigmas clássicos. O grupo de heróis mutantes, X-Men, que contou com Chris Claremont por mais de quinze anos como argumentista das histórias desses super-heróis tem um tom bem diferente, inclusive nas definições do que é ser herói e do que é ser vilão. Em uma entrevista publicada em 1995 na revista X-Men no Brasil, o autor fala sobre o personagem Magneto: “Magneto não pode ser definido em termos de herói ou vilão. Ele é um homem com um projeto de vida, uma ideologia. Ele é alguém que, se você quiser uma analogia mais contemporânea, está para Malcolm X [...] assim como Charles Xavier está para Martin Luther King [...]. Ele não confia no mundo. Ele crê que confiar na humanidade é pedir para ser traído por ela. [...] Da perspectiva de alguém que passou sua juventude num campo de extermínio em Auschwitz, ele é extraordinariamente amargo e cético”. Sendo assim, numa sociedade tão complexa como a nossa, a complexidade e a ambiguidade dos personagens são cada vez mais acentuadas.
Considerando que a moda dos filmes de super-heróis tem levado uma massa gigantesca de pessoas aos cinemas no mundo todo, batendo esses filmes todos os recordes de bilheteria, é preciso trazer isso para a sala de aula, e é nesse contexto que as narrativas que vamos ver sobre os mitos gregos e romanos e sobre algumas das maiores personalidades históricas da Grécia e da Roma antigas se inserem.
Referências:
CLAREMONT, Chris. “Entrevista com Chris Claremont”. In: X-MEN n° 77: O fim de uma era, pp.48-52. São Paulo: Editora Abril Jovem, 1995.
MANNING, Matthew K. O Mundo da Mulher-Maravilha. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 2017.
VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Religião na Grécia Antiga. Tradução: Joana Angélica D´Avila Melo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.





MITOS E NARRATIVAS



A contadora de histórias Bia Bedran escreveu, certa vez, o seguinte: “Contando sua própria história e a do mundo, o homem vem se utilizando da narrativa como um recurso vital e fundamental. Sem ela a sociabilidade e mesmo a consciência de quem somos não seria possível. O conto é uma memória da comunidade, em que encontramos lugares diferentes de olhar e ler o mundo ao praticarmos a arte da convivência”. Quem nunca parou para ouvir histórias de outro tempo contadas pelos avós ou outras pessoas mais velhas? Isso é uma forma de se conectar o passado e de compreender o presente a partir do relato dessa testemunha ocular dos fatos que se encontra diante de nós na figura da pessoa mais velha. Nós mesmos estamos sempre contando histórias, para nossos amigos, familiares e até pessoas estranhas que conhecemos na rua ou na internet. Nesse sentido, é pela comunicação que o homem se torna esse animal social que somos.
O arqueólogo Pedro Paulo Funari escreveu em um de seus livros sobre a arte de contar histórias e a narrativa histórica: “De fato, o homem é um animal que gosta de contar (e de ouvir) histórias. O que são os romances e contos, as telenovelas e os filmes, os desenhos animados e as peças de teatro, se não narrativas? Também o passado só adquire forma como uma narrativa, em um entrelaçar de dados e argumentos sobre a sucessão dos acontecimentos. Quanto mais recuamos no passado, tanto maior será a importância do relato, quase como se fosse uma viagem, imaginada e contada pelos estudiosos”. Nesse sentido, construímos nossa identidade, damos sentido às nossas vidas, direção aos nossos desejos, compreendemos os outros e a nós mesmos por meio das várias narrativas que lemos, ouvimos e vemos o tempo todo. Quem nunca viu um filme que lhe marcou? Quem nunca ouviu uma música que fez com que se emocionasse? A vida é assim, essas várias histórias que lemos, vemos e ouvimos fazem parte de nós e definem quem somos. Também é próprio dos seres humanos querer compartilhar suas experiências; colocamos nossas fotos em redes sociais, falamos com os colegas aquilo que fizemos no final de semana e até podemos inventar histórias. De fato, muitas das narrativas mais marcantes de nossas vidas são histórias inventadas. As obras de ficção do cinema e da TV marcaram nossa infância, adolescência e juventude. Nós sofremos e nos alegramos junto com os personagens dessas histórias. Nós torcemos por eles, porque nos identificamos com os seus desafios, sofrimentos e tragédias. Mas a imaginação não fica restrita à arte e às histórias inventadas. Também a ciência e a filosofia contam, muitas vezes, com uma boa dose de imaginação. Quando estudamos sobre a pré-história da humanidade ou sobre os povos da Antiguidade, temos que tentar imaginar como viviam, como eram, como era o seu cotidiano, eles não tiravam selfies, não escreviam sobre suas vidas, não as pessoas comuns, não como nós fazemos hoje. Tudo o que podemos fazer é, a partir dos vestígios deixados por eles, imaginar como viviam, amavam e lutavam. Travamos um diálogo vivo com aqueles que morreram mudos, que foram silenciados pela força irresistível do tempo. Somos nós, com nossa imaginação e com nossas perguntas, que impedimos que eles virem pó, que não permitimos que desapareçam enquanto escoam as areias do tempo. É preciso tentar ver a imagem dos que viveram num tempo sem fotos nem filmes, enquanto ouvimos as histórias sobre eles; histórias de gladiadores, escravos, piratas, soldados e heróis. Tudo isso que nos encanta hoje ao vermos esses mesmos personagens transformados pela magia da fantasia na tela do cinema.
No século XIX, Thomas Bulfinch escreveu O Livro da Mitologia, que em seu prefácio dizia: “Se considerarmos que os únicos ramos úteis do conhecimento são aqueles que concorrem para o aumento de nosso patrimônio material ou nosso status social, então a Mitologia não pode ser apresentada nessa categoria”. Ou seja, o conhecimento da mitologia não é prático, não é útil num sentido econômico, ninguém pode se tornar mais rico com esse conhecimento e ouso estender isso ao conhecimento da história. Se vocês conhecerem alguém que ficou rico pesquisando ou ensinando História, por favor, me apresentem, que eu quero aprender como se faz. Mas Bulfinch prossegue: “Sem o conhecimento da Mitologia, boa parte de nossa elegante literatura não pode ser compreendida e apreciada”. Estendo isso aos filmes. Temos hoje filmes sobre a Guerra de Troia e o herói Aquiles, filmes sobre Hércules, o poderoso filho de Zeus, nas mais variadas versões. E temos ainda filmes adolescentes sobre meninos e meninas semideuses nos dias atuais, como Percy Jackson e o ladrão de raios. Ou ainda a Mulher-Maravilha, a amazona, uma mulher guerreira, nascida sob a influência da mitologia grega e transformada em super-heroína. Os quadrinhos, e agora o cinema com os filmes baseados nas histórias em quadrinhos, estão cheios de super-heróis saídos diretamente da mitologia, como o poderoso Thor, da Marvel. Essas narrativas fantásticas nos inspiram e dão, muitas vezes, significado às nossas vidas.

Referências:
BEDRAN, Bia. A arte de cantar e contar histórias: narrativas orais e processos criativos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
BULFINCH, Thomas. O Livro da Mitologia: A Idade da Fábula. Tradução: Luciano Alves Meira. 1.ed. São Paulo: Martin Claret, 2013.
FUNARI, Pedro Paulo; NOELLI, Francisco Silva. Pré-história do Brasil. 4.ed. São Paulo: Contexto, 2015. – (Repensando a História).


POR QUE APRENDER HISTÓRIA?



Dizia o historiador Marc Bloch: “O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa”. Novos métodos de estudo, novas descobertas e novas interpretações estão sempre nos esclarecendo melhor sobre o passado e até reescrevendo o passado até então conhecido. Não podemos projetar no passado aquilo que nele não existiu, mas podemos sempre rever a forma como o nosso passado, a nossa memória e a nossa identidade enquanto povo, sociedade ou classe social são pensados.
Marc Bloch dizia ainda que “os exploradores do passado não são homens absolutamente livres. É seu tirano o passado, que só lhes consente saberem de si o que ele próprio, propositalmente ou não, lhes confiou”. O passado das várias civilizações que existiram na história da humanidade é cheio de lacunas. A História é como um quebra-cabeças com peças faltando. Por isso que apesar de ser uma ciência e que qualquer afirmação sobre a história dos homens deva ser fruto de investigação, comparação, pesquisa, reflexão, é impossível negar que uma boa dose de imaginação é necessária para penetrar no conhecimento do passado para compreender o nosso presente, que é o resultado desse passado. Temos que pensar o que pode ter acontecido, comparar com processos semelhantes que sejam melhor conhecidos e pensar as possibilidades de futuro que existiram no passado.
Diz um provérbio árabe: “Os homens parecem-se mais com o seu tempo que com os seus pais”. A cada geração, a forma de ver o mundo e de agir sobre ele se modificam e a visão que se tem do passado, as questões que chamam mais a nossa atenção e os julgamentos que fazemos a respeito das escolhas e das ações dos homens e mulheres que viveram antes de nós também. E essa também é uma razão para que o conhecimento histórico esteja sempre mudando. Compartilhamos com outras pessoas que nasceram e cresceram na mesma época que nós experiências, somos parte de uma experiência coletiva que marca o caráter da nossa geração. O nosso gosto musical, o que gostamos de fazer nas nossas horas de lazer e até os nossos projetos de vida dependem do contexto social e histórico em que vivemos e isso influencia também a forma como vemos o passado e o que esperamos do futuro.
Mas somos parte de uma jornada humana que começou muito antes de nós. Não brotamos como que por mágica da terra com o sentido de unicamente comprar o que é produzido e oferecido para nós nas propagandas que vemos na televisão, nos vários anúncios na internet e nos outdoors. Somos filhos, netos, bisnetos, somos parte de uma tradição familiar, política, religiosa. Os que vieram antes de nós foram parte de igrejas, partidos políticos, escolas de samba, sindicatos, associações de moradores ou de qualquer outra instituição, comunidade ou grupo social. E nós somos parte de seu legado. Nós herdamos o que os seres humanos do passado sonharam, criaram, construíram ou destruíram. Nós somos parte de uma história que nos atravessa, que começa antes do nosso nascimento e se estende até depois de nossa morte. Conhecer o presente e o passado das sociedades humanas e da nossa sociedade em especial é também um exercício de autoconhecimento.
Por tudo isso aprender História é fundamental. A História é uma ciência humana que nos faz enxergar as diferenças e o que há em comum entre os homens ao longo da nossa marcha sobre a Terra.

Referência:
BLOCH, Marc. Introdução à História. 2ª edição. Tradução: Maria Manuel Miguel e Rui Grácio. Lisboa: Publicações Europa-América, 1974.







quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Não importa o que digam, é graças aos professores que ainda existe educação básica nesse país

Não importa o que digam, é graças aos professores que ainda existe educação básica nesse país. Um título longo, mas necessário. É necessário que de cara já se deixe claro a mensagem. Apesar de, especialmente nas escolas públicas municipais e estaduais, não termos materiais, tendo que comprar muitas vezes do próprio bolso, sermos pressionados a aprovar em massa alunos que não tiveram a oportunidade de ter uma escola que garantisse sua aprendizagem, de termos salários atrasados, salários baixos em relação à nossa formação, ainda mais se considerarmos que muitos docentes da educação pública, mesmo no ensino fundamental e médio, têm especialização, mestrado e doutorado, de sermos desmoralizados perante a opinião pública pela grande mídia, sermos hostilizados até mesmo pela população quando fazemos greve e atacados pelas grandes emissoras de televisão, mesmo com tudo isso, tal como Atlas, sustentamos a educação desse país em nossos ombros, carregamos nas costas o peso dos problemas sociais, da violência, da ignorância, da falta de investimentos nos serviços públicos. Quando vejo os professores discutindo alternativas ou mesmo desabafando sobre os problemas do ensino na internet, na sala dos professores ou mesmo em conversas informais, quando vejo grupos virtuais de troca de atividades para tentar garantir o mínimo em sala de aula com nossos alunos, quando vejo blogs de professores sobre as diversas áreas do ensino, quando vejo os professores, como eu e tantos outros, estudando mais e mais, fazendo mestrado, pós, pra tentar aprender mais e melhorar a qualidade do nosso trabalho, sem nenhum incentivo, sem liberação para estudo, por conta própria, tendo que estudar e ao mesmo tempo trabalhar, cuidar de casa, de filho e ainda ter que lutar contra os ataques que os desocupados que estão no poder não cansam de fazer contra a nossa categoria profissional e contra a escola pública, quando vejo professores tendo que brigar para ter tempo de planejamento para melhorar a qualidade das aulas e atingir os objetivos relativos à aprendizagem dos alunos, quando vejo professores tendo que brigar para conseguir dar aula (sim, nós brigamos para conseguir trabalhar) e não contarmos, muitas vezes, com o apoio das famílias, dos governos, e em muitas escolas das equipes pedagógicas, embora ainda existam famílias participativas, equipes pedagógicas que apóiam a atividade docente, mas quanto aos governos aí o descaso é absoluto mesmo, quando vejo tudo isso e vejo que seguimos em frente, isso renova a esperança. Seguimos em frente mesmo com todos os ataques que sofremos, e é um massacre sobre nós, todos os dias, o que nos leva a uma contradição: a categoria que mais briga para conseguir trabalhar é também aquela que é formada por pessoas que todos os dias contam os dias para o próximo feriado, as próximas férias, para a aposentadoria, porque nosso trabalho alcançou tal nível de alienação, que aquilo que era nossa vocação torna-se fonte de mortificação. Parabéns para nós que seguimos em frente na trincheira da sala de aula, no front! Nós somos, e digo isso sem a menor dúvida, a linha de frente do combate por uma sociedade civilizada, esclarecida, produtiva e justa. É inspiradora a atitude de cada colega que compartilha o seu conhecimento, a sua experiência e pratica gestos de generosidade na vida e no trabalho que ajudam cada um de nós a seguir em frente e formar essa rede viva de cooperação, de ajuda mútua, uma rede profissional de discussão e trabalho, de compartilhamento de experiências, estudos e práticas e também de nossas angústias. Sei que prometi que esse seria um blog profissional apenas. Mas assim como se fez necessária uma postagem mais teórica no início, faz-se necessária essa postagem política, sim, política, abertamente política e digo sem medo de dizê-lo, porque ou forjamos uma comunidade de interesses contra todos aqueles que militam pela ignorância do povo ou seremos esmagados pelo peso do mundo que jogam sobre nossas costas. 


Rafael Rossi

sábado, 27 de janeiro de 2018

Minha experiência no EJA: Atividade sobre o Dia do Trabalhador

Esse é um relato de experiência. Tive uma turma de EJA na rede municipal de educação de Itaguaí no ano passado. Adorei a experiência. Consegui dar aula de verdade, como há muito tempo eu não fazia, dadas as condições para o exercício da docência na educação básica hoje. Ter um público disposto a receber aquilo que você tem a oferecer é condição primeira para qualquer diálogo efetivo. A ideia de que o professor tem que despertar magicamente a atenção do aluno, que deve esperar passivo pelos estímulos externos do docente, como se reagisse aos choques elétricos do ensino como diversão (que é diferente do uso do lúdico, como discutimos em outra postagem) é, resumidamente, reacionária. Tornar a aula interessante não implica em oferecer o que cada público deseja, mas trazer para o universo da sala de aula um aspecto de tensão também que retira os sujeitos alienados de sua autonomia e senso crítico pelo contexto sociocultural em que estão inseridos dessa situação. É dialético o processo de ensino-aprendizagem, não apenas dialógico como se fosse uma conversa entre dois amigos, mas também uma luta contra o processo de domesticação dos filhos da classe trabalhadora, preparados desde cedo para serem apenas produtores e consumidores, mas nunca cidadãos e muitos menos seres humanos no seu sentido pleno. 
Dito isso, pude explorar algumas questões como a da alienação do trabalho a partir de algumas atividades em sala de aula. Numa delas, perguntei a eles, pouco antes do feriado do dia primeiro de maio, o que fariam no Dia do Trabalhador. Em suas respostas, adultos, adolescentes e jovens relataram o que fariam autonomamente com seu próprio tempo, livres das obrigações impostas pelo trabalho ou mesmo pelo estudo (que tem inevitavelmente uma ligação estreita com o mundo do trabalho). No caso das mulheres casadas, isso não significava necessariamente não fazer os trabalhos de casa, e mesmo homens falavam de coisas que precisavam ser feitas em casa, cuidados com a casa. Isso tudo é um relato de memória vários meses depois, mas foi uma experiência que me marcou. Minha intenção era justamente essa, jogar para eles o que eles fariam por si próprios, dispondo de seu próprio tempo de vida no feriado do Dia do Trabalhador. O que revelaram os textos dos alunos é que se os trabalhadores tivessem seu tempo para si ele seria usado de forma muito distinta do que é utilizado todos os dias para ganhar o pão de cada dia. A riqueza dessa experiência para mim não tem preço. 


Rafael Rossi

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

ATIVIDADE sobre Democracia Direta e Democracia Representativa

Já faz alguns anos que eu preparei um Caderno de Atividades de Sala de Aula para o Ensino Fundamental para uso próprio com algumas atividades de reflexão que se relacionavam com os conteúdos de História. Em relação ao tema da democracia ateniense, abordo em sala de aula as diferenças existentes entre a democracia direta de Atenas e a democracia representativa que temos hoje no Brasil. Trazendo para a prática essas questões, faço dois exercícios com os alunos de 6 ano:

Atividade 1 - Realização de uma assembleia em sala de aula para compreender o funcionamento de uma democracia direta.

Atividade 2 - Escreva uma carta para o prefeito exigindo as melhorias que você considerar mais urgentes em sua cidade.

Na primeira atividade, trata-se de uma atividade coletiva em que os alunos vão elencando os problemas da escola. Na segunda atividade, trata-se de um exercício individual em que os alunos escrevem em folha separada o que consideram que deve ser a prioridade de investimento do Estado. Uma terceira atividade pode ser feita trabalhando a democracia representativa com a redação de uma carta para a Câmara dos Deputados, por exemplo, exigindo a aprovação de leis que melhorem a vida dos cidadãos brasileiros. A primeira atividade, devo confessar, é bastante difícil de colocar em prática, vai depender da turma e da sua relação com ela para que haja organização e participação suficientes para o sucesso da tarefa. Não existe fórmula mágica na educação, trata-se de relações humanas as relações entre professores e alunos e também as relações sociais mais gerais que implicam nos sucessos e nos fracassos relativos à educação.
Outra oportunidade de trabalhar a questão da democracia representativa pode ser a própria eleição do representante de turma, com uma discussão séria de que não se trata de um secretário do professor mas também não é um concurso de popularidade, esclarecendo o que é ser um representante.
Eu vou postar mais atividades ao longo do tempo, organizando melhor em planos de aula (ou não). Mas por enquanto deixo essa aí pra vocês. Boa sorte, é sempre bom!


Rafael Rossi

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Férias é pra se divertir ou pra ter prazer?

Férias é pra se divertir ou pra ter prazer? Uma pergunta a princípio sem sentido, afinal, o que nós consideramos divertimentos não são coisas prazerosas? Diversão e prazer não são a mesma coisa? Não, não são. No campo da psicopedagogia, as contribuições de Jean Chateau a respeito do caráter dos jogos infantis afastam a atividade lúdica do conceito de diversão. No livro O Jogo e a Criança, Chateau escreve que o jogo é sério e que não é mero divertimento, aproximando-se a atitude lúdica da atitude estética. Nessa perspectiva, arte e ciência aparecem como sendo frequentemente jogos sérios. De acordo com Jean Chateau, entregando-se ao jogo, à atividade lúdica, é possível abandonar o mundo da necessidade, criar mundos de utopia e realizar-se plenamente. A atividade lúdica, que é uma atividade séria, tem uma importância fundamental no desenvolvimento da inteligência humana. De acordo com esse autor, uma criança que não brinca será um adulto que não sabe pensar. A seriedade do jogo infantil, diz esse autor, não vem da situação, como o patrão que controla o trabalho, em razão de resultados concretos que traz, como salário, próprio da seriedade da atividade prática. Não vem de interesses vitais como a necessidade de comer. O jogo infantil é sério porque nele a criança afirma seu ser. "Se o jogo é sério e pode ir até o ascetismo, é porque ele envolve o ser como um todo, pois é uma manifestação da personalidade total. Melhor dizendo: o jogo é antes de mais nada uma prova. E é por isso que a criança procura um público e se glorifica com todas as suas conquistas". E o que esse autor diz dos jogos adultos? Segundo Jean Chateau: "O jogo do adulto, já dissemos, tem muitas vezes como origem a procura de um relaxamento. Mas não é sempre assim. Frequentemente também joga-se apenas para 'se ocupar', para passar o tempo, porque não se sabe o que fazer. [...] O jogo é então um remédio contra o tédio; é aquele divertimento de que falava Pascal. É a única ocupação do desocupado, do ocioso [...] Há nesse jogo do adulto algo de negativo; ele não tem seu princípio em si mesmo; é um remédio contra o tédio ou contra a fadiga. Ao contrário, o jogo da criança tem seu fim em si mesmo, na afirmação do eu. Vê-se também que os jogos adultos são muitas vezes jogos tristes. Que se compare a atmosfera ruidosa e animada dos pátios de recreação de nossas escolas com a atmosfera que circunda os jogadores debruçados sobre a roleta, ou a dos bailes de sociedade onde se descobre a vaziez triste e tediosa do mundo. Pelo fato de existir somente a título de remédio e contra alguma coisa, o jogo adulto encerra geralmente um desagradável gosto amargo".
Foi uma supresa pra mim quando li isso porque imediatamente me remeteu à Escola de Frankfurt e à definição de Adorno sobre a diversão. Então, o que nos diz a filosofia: "A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada pelos que querem se subtrair aos processos de trabalho mecanizado, para que estejam de novo em condições de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização adquiriu tanto poder sobre o homem em seu tempo de lazer e sobre sua felicidade, determinada integralmente pela fabricação dos produtos de divertimento, que ele apenas pode captar as cópias e as reproduções do próprio processo de trabalho. [...] Do processo de trabalho na fábrica e no escritório só se pode fugir adequando-se a ele mesmo no ócio. Disso sofre incuravelmente toda diversão. O prazer congela-se no enfado, pois que, para permanecer prazer, não deve exigir esforço algum, daí que deva caminhar estreitamente no âmbito das associações habituais. O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça [...]". Nesse sentido, diversão é objeto de uma indústria, a indústria do entretenimento, e serve para o relaxamento passivo dos trabalhadores. Diz Adorno: "Divertir-se significa estar de acordo. [...] Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência". Quando ele fala do tema dos hobbies é possível identificar ainda mais claramente a semelhança entre a análise de Chateau e de Adorno sobre o que eles entendiam como sendo divertimento. Adorno, em um dos textos contidos no livro Indústria Cultural e Sociedade, escreve o seguinte: "Eu não tenho qualquer hobby. Não que eu seja uma besta de trabalho que não sabe fazer consigo nada além de esforçar-se e fazer aquilo que deve fazer. Mas aquilo com o que me ocupo fora da minha profissão oficial é, para mim, sem exceção, tão sério que me sentiria chocado com a ideia de que se tratasse de hobbies, portanto ocupações nas quais me jogaria absurdamente só para matar o tempo [...] Compor música, escutar música, ler concentradamente, são momentos integrais da minha existência, a palavra hobby seria escárnio em relação a elas". Novamente aqui aparece a questão da atividade lúdica (que não é diversão ou hobby) como atividade séria e que serve para a afirmação da personalidade do indivíduo. E por que as pessoas precisam recorrer a hobbies e a divertimentos imbecilizantes, superficiais e padronizados para ocupar seu tempo fora do trabalho, para "matar o tempo" (Meu Deus, que expressão terrível para algo tão precioso como a vida, e que desperdício simplesmente gastar inutilmente - do ponto de vista da afirmação do ser - o tempo de vida e a energia vital!)? Segundo Adorno, é a falta de fantasia que deixa as pessoas desamparadas no seu tempo livre. O tédio existe porque as pessoas não têm autonomia, porque suas vidas são determinadas pela divisão do trabalho, e porque nelas foi mutilada a capacidade de imaginação. "Sempre que a conduta no tempo livre é verdadeiramente autônoma, determinada pelas próprias pessoas enquanto seres livres, é difícil que se instale o tédio [...] Se as pessoas pudessem decidir sobre si mesmas e sobre suas vidas, se não estivessem encerradas no sempre-igual, então não se entediariam". 
Mas e o lúdico? Então está condenado a permanecer perdido em algum lugar da infância, uma espécie de Paraíso perdido? Embora a Bíblia comece com a expulsão do Homem do Paraíso, o Paraíso não está no passado, está no futuro, ou melhor dizendo, é a recordação que aponta para a utopia que irá vingar todos os que tombaram pelo cansaço, pelo tédio ou pela tortura. Marcuse, citando Schiller, escreve que o impulso lúdico tem por objetivo a beleza e por finalidade a liberdade. A infância do homem é o futuro da humanidade. Segundo Marcuse: "Numa civilização autenticamente humana, a existência humana jogará em vez de labutar com esforço, e o homem viverá exibindo-se, em vez de permanecer vergado à necessidade". Para ele: "O livre jogo da imaginação traça e projeta as potencialidades do ser total". As ideias de jogo e de exibição, para Marcuse, se distanciam dos valores da produtividade e do desempenho. Segundo ele, "o jogo é improdutivo e inútil precisamente porque anula as características repressivas e exploradoras do trabalho e do lazer; 'joga, simplesmente', com a realidade". Em Eros e Civilização, Marcuse não deixa de denunciar, no entanto, a "servidão voluntária". Numa passagem das mais belas, Marcuse descreve a vida vazia de todos nós, servos felizes: "Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais - e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema - que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações". E aqui, sem querer me alongar mais em citações, gostaria de discutir o conceito de felicidade. Para Marcuse, "a felicidade não está no mero sentimento de satisfação, mas na realidade concreta de liberdade e satisfação. A felicidade envolve conhecimento: é a prerrogativa do animal rationale. Com o declínio da consciência, com o controle da informação, com a absorção do indivíduo na comunicação em massa, o conhecimento é administrado e condicionado. [...] E como o conhecimento da verdade completa dificilmente conduz à felicidade, essa anestesia geral torna os indivíduos felizes". 
Mas é na psicanálise que podemos encontrar a clara definição do conceito de prazer. O conceito freudiano de princípio de prazer designa o programa do indivíduo, o desenvolvimento do indivíduo é dirigido pela satisfação da felicidade. Na medida em que o princípio mental do prazer cede lugar ao princípio de realidade o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo e o prazer passa a ser adiado em nome de ganhos mais duradouros. O princípio da realidade é o princípio que rege a civilização. Enquanto a função da razão se desenvolve no ser humano sob o princípio de realidade, a atividade mental da fantasia permanece livre do domínio do princípio da realidade e vinculada ao princípio de prazer. Em O mal-estar na civilização, Freud trata da questão da sublimação dos instintos como uma técnica para afastar o sofrimento. Para Freud: "Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual". A arte e a ciência são formas de sublimação, de deslocamento de libido, canalização ou reorientação dos desejos. Nesse sentido, a civilização não é obra apenas do princípio de realidade e da razão, mas também um processo a serviço de Eros, o instinto de vida. A sublimação está na raiz do desenvolvimento cultural das sociedades humanas. 
Compreender conceitos como prazer, lazer, diversão, lúdico, felicidade não são questões menores, são vitais para reorientarmos nossa existência no sentido de uma vida propriamente humana. Alguém poderia contestar um longo texto baseado em outros textos de Freud, Adorno, Marcuse e Jean Chateau. Pois bem. Podemos, então, ir mais fundo e olhar atentamente, sem medo, para aquilo que está bem diante de nós. Se você olhar bem de perto o sorriso de Mona Lisa de todo trabalhador de férias, você desvenda o seu mistério: por trás dele se esconde o desespero do trabalhador alienado, do sujeito que espera todo o ano pelas férias, quer mesmo que o tempo passe mais depressa, e com isso, tenha ele consciência disso ou não, que sua vida passe mais depressa e acabe mais depressa também. É um desejo tão forte de se libertar dos grilhões do trabalho que a hipótese de uma vida mais curta (ou pelo menos o que é experimentado como vida pelo indivíduo, sendo os dias de trabalho o pedágio que é obrigado a pagar para viver) não é tão ruim, se for levá-lo àquela parcela de vida propriamente humana chamada férias. Mas quando chegam as aguardadas férias, o indivíduo está tão massacrado em sua subjetividade, tão vazio em imaginação, tão sem forças para criar autonomamente as atividades enriquecedoras e humanas pelas quais anseia o seu espírito no tempo livre conquistado, que se entrega ao que a indústria do entretenimento tem a lhe oferecer na TV, no cinema, em shows, todos produtos culturais da moda, e no ano seguinte, haverá outros como eles, levemente diferentes, mas essencialmente idênticos. Além disso, podem gastar o seu tempo com qualquer passatempo que aparecer, pois ao finalmente se deparar com o tempo de sua vida só para si, o indivíduo massacrado o ano inteiro pelo trabalho e pelas contas só pensa em descansar sua cabeça. A diversão e o lazer são o descanso do escravo, o prazer está naquilo que não se pode pagar, no sexo com quem se ama, no contato com a natureza e em brincar com seu filho. E, no caso do professor, até estudar nas férias é parte de seus prazeres. Isso porque quem gosta de ensinar ensina aquilo que lhe dá entusiasmo, quer discutir com outros o conhecimento ou a experiência que o apaixonou. Contra o remédio amargo da diversão que existe para "matar o tempo" se insurge o verdadeiro prazer, aquilo que é verdadeiramente humano, verdadeiramente natural, verdadeiramente livre. As suas férias são, neste mundo de alienação, a sua única porção de vida em que você pode reinventá-la, realizando, na medida do possível, o seu ser, dentro dos limites possíveis da felicidade e da liberdade nessa existência. Prazer, sou historiador, escritor e amo escrever, não é hobby, não é passatempo, é minha existência autêntica socialmente negada. Qual é a sua?


Rafael Rossi

SAUDAÇÕES, PROFESSORES E ESTUDANTES DE HISTÓRIA!

Esse blog tem o objetivo de compartilhar exercícios, atividades, planos de aula, artigos e produções científicas e didáticas em geral de minha autoria com meus colegas de profissão. Sabemos o quanto é difícil o magistério e o quanto é difícil despertar o interesse dos alunos para aprender História num tempo em que tudo se resume ao imediato, nem o passado e nem o futuro importam. Tenho 10 anos de magistério no ensino fundamental na rede municipal de educação do Rio de Janeiro e 6 anos na rede municipal de Itaguaí. Já lecionei em turmas de 6, 7, 8 e 9 anos e turma de EJA. Minha formação teve, de início, um viés mais acadêmico, fiz meu Bacharelado e Licenciatura em História na UFF e depois continuei no Mestrado em História Social Antiga também na UFF. Como historiador, dediquei-me aos estudos da Roma Antiga. Fiz posteriormente uma Especialização em Filosofia Moderna e Contemporânea na Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro, produzindo uma monografia sobre a indústria cultural e a alienação do tempo livre. Tudo isso foi muito importante para ampliar meu conhecimento, mas do ponto de vista da sala de aula do ensino fundamental ainda era insuficiente. Decidi, então, fazer o Mestrado Profissional em Ensino de História, o PROFHISTÓRIA, onde estou desenvolvendo uma pesquisa sobre o uso da "contação de histórias" como metodologia de ensino para as turmas de 6 ano, aprofundando nos conceitos de lúdico, jogos e experiência e trabalhando temas da História Antiga a partir do conceito de herói, sendo as narrativas de heróis algo que inspira os jovens atualmente. Estou em processo de escrita da dissertação e de produção do material didático, realizando esse curso de pós-graduação stricto sensu também na UFF. Além disso, tenho me dedicado a uma pós lato sensu em Roteiro para Cinema, TV, WEB e Multiplataformas na Universidade Veiga de Almeida. É isso, amigos, nossa vida de professor também é estudar. Por isso, vou compartilhar aqui experiências e estudos, nem mais nem menos que isso. Que tenhamos todos uma boa jornada juntos!

CONSUMO, CONSUMISMO E OBSOLETISMO PLANEJADO

              No vídeo “A História das Coisas”, sucesso na internet visto por milhões de pessoas de todo o mundo, são apresentados os conc...