Esse é um relato de experiência. Tive uma turma de EJA na rede municipal de educação de Itaguaí no ano passado. Adorei a experiência. Consegui dar aula de verdade, como há muito tempo eu não fazia, dadas as condições para o exercício da docência na educação básica hoje. Ter um público disposto a receber aquilo que você tem a oferecer é condição primeira para qualquer diálogo efetivo. A ideia de que o professor tem que despertar magicamente a atenção do aluno, que deve esperar passivo pelos estímulos externos do docente, como se reagisse aos choques elétricos do ensino como diversão (que é diferente do uso do lúdico, como discutimos em outra postagem) é, resumidamente, reacionária. Tornar a aula interessante não implica em oferecer o que cada público deseja, mas trazer para o universo da sala de aula um aspecto de tensão também que retira os sujeitos alienados de sua autonomia e senso crítico pelo contexto sociocultural em que estão inseridos dessa situação. É dialético o processo de ensino-aprendizagem, não apenas dialógico como se fosse uma conversa entre dois amigos, mas também uma luta contra o processo de domesticação dos filhos da classe trabalhadora, preparados desde cedo para serem apenas produtores e consumidores, mas nunca cidadãos e muitos menos seres humanos no seu sentido pleno.
Dito isso, pude explorar algumas questões como a da alienação do trabalho a partir de algumas atividades em sala de aula. Numa delas, perguntei a eles, pouco antes do feriado do dia primeiro de maio, o que fariam no Dia do Trabalhador. Em suas respostas, adultos, adolescentes e jovens relataram o que fariam autonomamente com seu próprio tempo, livres das obrigações impostas pelo trabalho ou mesmo pelo estudo (que tem inevitavelmente uma ligação estreita com o mundo do trabalho). No caso das mulheres casadas, isso não significava necessariamente não fazer os trabalhos de casa, e mesmo homens falavam de coisas que precisavam ser feitas em casa, cuidados com a casa. Isso tudo é um relato de memória vários meses depois, mas foi uma experiência que me marcou. Minha intenção era justamente essa, jogar para eles o que eles fariam por si próprios, dispondo de seu próprio tempo de vida no feriado do Dia do Trabalhador. O que revelaram os textos dos alunos é que se os trabalhadores tivessem seu tempo para si ele seria usado de forma muito distinta do que é utilizado todos os dias para ganhar o pão de cada dia. A riqueza dessa experiência para mim não tem preço.
Rafael Rossi
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