sábado, 9 de março de 2019

DESCOBRIMENTO DO BRASIL?



O historiador Gilberto Cotrim, em seu livro didático Historiar, para o 7° ano, trata da questão da chegada dos portugueses ao Brasil, da discussão do uso dos termos “descobrimento” ou “conquista”. Em resposta a essa pergunta ele escreve: “Segundo alguns historiadores, descobrimento é uma palavra que exalta os europeus, omite a violência presente no ato de conquistar e ignora a presença de todos os povos e culturas que já existiam no continente americano”. Mais à frente, tratando da luta indígena no Brasil, ele relata o episódio das manifestações dos indígenas contra a comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil:
“Em 22 de abril de 2000, o governo organizou uma festa em Porto Seguro, na Bahia, para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil.
Os indígenas brasileiros recusaram-se a participar da festa. Para eles, o que aconteceu não foi um descobrimento, mas a invasão de suas terras. Eles queriam deixar claro que não havia motivo para comemoração. Queriam mostrar aos outros brasileiros que os indígenas contavam a história de outra forma.
Assim, representantes dos povos indígenas saíram de vários pontos do Brasil em direção à Bahia. Mas a polícia impediu alguns protestos contra a festa oficial. Muitos indígenas foram presos e outros se machucaram no confronto”.
No Carnaval de 2019, a escola de samba Mangueira trouxe esse tema para a avenida. Com o enredo “História pra ninar gente grande’, fez um desfile apresentando os heróis da resistência da história do Brasil, os anônimos, os excluídos e aqueles que não fizeram parte, durante muito tempo, da história oficial. Versos como “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento” e “Deixa eu te contar/ A história que a história não conta”, que fizeram deste samba-enredo um dos mais críticos dos últimos carnavais populares do Rio de Janeiro, dialogam com a mobilização que os indígenas protagonizaram no ano 2000 contra a história oficial que naquele momento excluía sua importância, sua resistência e o seu sofrimento. Um samba-enredo que, ao contrário do que se fez por décadas, exaltou “Mulheres, tamoios, mulatos”, reivindicando o lugar dos negros, das mulheres e dos indígenas na história do Brasil.
Sendo assim, comemorar “o descobrimento do Brasil” é ignorar a história dos indígenas que viviam antes da chegada dos europeus e dos africanos que foram trazidos como escravizados, e sua longa história de resistência à invasão de suas terras e à sua escravidão.

MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA NO BRASIL



Nise da Silveira e Marielle Franco foram duas grandes mulheres brasileiras.
A primeira foi pioneira da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Nise da Silveira criou a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, bairro do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. Os pacientes desenvolviam atividades artísticas nos ateliês organizados por ela. Nise da Silveira fundou no hospital psiquiátrico o Museu de Imagens do Inconsciente, com o acervo produzido por seus pacientes. Esse acervo se tornou um patrimônio científico e cultural reconhecido mundialmente e é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Marielle Franco foi uma defensora de direitos humanos eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro que foi assassinada em março de 2018. O caso Marielle se tornou destaque da maior campanha de direitos humanos do mundo, organizada pela Anistia Internacional. A campanha “Escreva por Direitos”, da ONG Anistia Internacional, teve, em 2018, o foco em mulheres, gênero e em defensoras de direitos humanos. A campanha durou 5 meses, tendo início oficialmente em 10 de outubro de 2018 e terminando no dia 8 de março de 2019, Dia Internacional da Mulher. A campanha “Escreva por Direitos” mobiliza ativistas e apoiadores da Anistia Internacional a escreverem cartas e realizarem atividades em defesa de pessoas perseguidas, ameaçadas ou presas injustamente. Marielle também foi homenageada no Carnaval do Rio de Janeiro deste ano (2019) pela escola de samba campeã, Mangueira, com seu nome em um dos versos do samba: “Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. O samba-enredo destacava o papel das mulheres, dos negros e dos índios na construção do Brasil e de sua resistência ao racismo, à discriminação, à escravidão e ao autoritarismo.
Esses são exemplos de mulheres brasileiras que se destacaram na ciência e na política e que contribuíram para a democracia no país.

O CARNAVAL NO RIO DE JANEIRO



O Carnaval é uma festa popular que tem suas origens na Idade Média europeia, mas que se tornou um fenômeno de massas no Brasil contemporâneo. O Carnaval é a vida festiva do povo; uma espécie de liberação do cotidiano dominado pelas hierarquias sociais e pelo trabalho alienado, o trabalho realizado unicamente para garantir o que comer, para pagar as contas.
O Carnaval é parte da cultura popular. Na Idade Média, os carnavais populares eram o oposto das festas oficiais da Igreja e do Estado feudal, dos grupos sociais dominantes e das instituições que representavam o seu poder. Na festa de Carnaval reinava um contato livre e familiar entre os indivíduos, de acordo com o estudioso Mikhail Bakhtin. Para Bakhtin, isso fazia parte da “visão carnavalesca de mundo”. Nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, é comum também essa informalidade entre aqueles que brincam o Carnaval, rompendo com as barreiras das hierarquias sociais predominantes no mundo do trabalho e na vida social nos outros dias do ano. O Carnaval é jogo, é lúdico, é a festa da liberdade; nos dias em que dura o Carnaval um servo pode ser um rei, um homem da lei pode ser um pirata, toda mulher pode ser uma rainha na avenida, um homem tímido pode ditar o ritmo da festa integrando a bateria de um bloco de carnaval ou de uma escola de samba. A lógica do carnaval é oposta à lógica da produtividade que domina o mundo do trabalho; é a lógica das coisas ao avesso. São dias de alegria em que pessoas comuns podem se fantasiar e brincar de ser outra pessoa, até mesmo outros seres, bruxos, bruxas, super-heroínas e super-heróis.
No Rio de Janeiro o Carnaval é marcado pela cultura negra, com a forte presença do samba. A cultura negra tem grande importância na vida cultural da população do Rio de Janeiro. O samba carioca é hoje patrimônio cultural imaterial nacional. O Dossiê do IPHAN “Matrizes do Samba no Rio de Janeiro” apresenta o samba como “fruto de ricas tradições africanas e afro-brasileiras”. O samba carioca se originou na Pedra do Sal, no Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, no início do século XX. Mais tarde, a população negra marginalizada pela política do prefeito Pereira Passos, que promoveu a remoção da população daquela região com sua reforma urbana, passou a se reunir na casa da baiana Tia Ciata, na região da Cidade Nova. Os sambas-enredo, marca do Carnaval do Rio de Janeiro, eram vistos pelo compositor Ismael Silva como formas de comunicação com as massas. O samba-enredo é instrumento de transmissão das tradições africanas e da cultura popular, de educação do povo e uma forma de contato da maioria da população com sua própria história. Resumindo, tem um caráter não só de divertimento, mas pedagógico.
Os temas dos sambas-enredo são os mais variados. A escola de samba Vila Isabel já homenageou Zumbi dos Palmares e cantou a abolição da escravidão no samba-enredo Kizomba, festa da raça (1988): “Valeu Zumbi!/ O grito forte dos Palmares/ Que correu terras, céus e mares/ Influenciando a abolição/ Zumbi valeu!/ Hoje a Vila é Kizomba/ É batuque, canto e dança/ Jongo e maracatu”. Tratando da exploração de nossos dias, a escola de samba Paraíso do Tuiuti em samba-enredo mais recente, Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? (2018), trouxe os seguintes versos: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu Paraíso é meu bastião/ Meu Tuiuti, o quilombo da favela/ É sentinela na libertação”. A escola de samba Império Serrano já cantou em homenagem à luta dos sem-terra no samba-enredo E verás que um filho teu não foge à luta (1996): “O povo diz amém/ É porque tem/ Um ser de luz a iluminar/ O moderno Dom Quixote/ Com mente forte vem nos guiar/ Um filho do verde esperança/ Não foge à luta, vem lutar/ Então verás um dia/ O cidadão e a real cidadania/ Quero ter a minha terra, ô ô ô/ Meu pedacinho de chão, meu quinhão/ Isso nunca foi segredo/ Quem é pobre tá com fome/ Quem é rico tá com medo [...] Eu me embalei p´ra te embalar/ No balancê, balancear/ Vem na folia/ Chegou a hora de mudar/ O meu Império vem cobrar democracia”. Mas não é só de crítica social que são feitos os grandes sambas-enredo. Carnaval é jogo, é brincadeira, é alegria e a escola de samba União da Ilha já trouxe isso tudo para o desfile de escolas de samba com um samba-enredo sobre a infância e a brincadeira, o samba É Brinquedo, É Brincadeira, a Ilha vai levantar poeira (2014): “Hoje a Ilha vem brincar, amor!/ Vem sorrindo cirandar que eu vou/ Dar meia volta, volta e meia no seu coração/ Ser criança não é brinquedo não!/ Levanta a poeira/ Vem nessa brincadeira que eu quero ver/ Nesse baú da memória/ São tantas histórias é só escolher [...] Perder ou ganhar, ganhar ou perder/ Se conectar, jogar e aprender/ Um super-herói pode ser você”. A União da Ilha conta ainda com outros dois grandes sambas – É Hoje, de 1982, e O Amanhã, de 1978. O samba É Hoje celebra a própria festa do Carnaval e apresenta elementos da cultura negra e das tradições africanas e afro-brasileiras: “A minha alegria atravessou o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ No maior show da Terra/ Será que eu serei/ o dono desta festa um rei/ No meio de uma gente tão modesta/ Eu vim descendo a serra/ Cheio de euforia para desfilar/ O mundo inteiro espera/ Hoje é dia do riso chorar/ Levei o meu samba/ Pra mãe-de-santo rezar/ Contra o mau olhado/ Carrego o meu Patuá [...] É hoje o dia da alegria e a tristeza/ Nem pode pensar em chegar”. E diz o samba O Amanhã: “Como será o amanhã/ Responda quem puder/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser/ A cigana leu o meu destino/ Eu sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o mal-me-quer/ Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz/ Sempre feliz”. Nos sambas-enredo sempre são cantadas a liberdade e a alegria e mesmo a crítica social vem em ritmo de festa em oposição à seriedade que domina os demais dias do ano, no trabalho, na política e nas relações sociais mais formais.

CONSUMO, CONSUMISMO E OBSOLETISMO PLANEJADO

              No vídeo “A História das Coisas”, sucesso na internet visto por milhões de pessoas de todo o mundo, são apresentados os conc...