O
historiador Gilberto Cotrim, em seu livro didático Historiar, para o 7° ano, trata da questão da chegada dos portugueses
ao Brasil, da discussão do uso dos termos “descobrimento” ou “conquista”. Em
resposta a essa pergunta ele escreve: “Segundo alguns historiadores,
descobrimento é uma palavra que exalta os europeus, omite a violência presente
no ato de conquistar e ignora a presença de todos os povos e culturas que já
existiam no continente americano”. Mais à frente, tratando da luta indígena no
Brasil, ele relata o episódio das manifestações dos indígenas contra a
comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil:
“Em
22 de abril de 2000, o governo organizou uma festa em Porto Seguro, na Bahia,
para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil.
Os
indígenas brasileiros recusaram-se a participar da festa. Para eles, o que
aconteceu não foi um descobrimento, mas a invasão de suas terras. Eles queriam
deixar claro que não havia motivo para comemoração. Queriam mostrar aos outros
brasileiros que os indígenas contavam a história de outra forma.
Assim,
representantes dos povos indígenas saíram de vários pontos do Brasil em direção
à Bahia. Mas a polícia impediu alguns protestos contra a festa oficial. Muitos
indígenas foram presos e outros se machucaram no confronto”.
No
Carnaval de 2019, a escola de samba Mangueira trouxe esse tema para a avenida.
Com o enredo “História pra ninar gente grande’, fez um desfile apresentando os
heróis da resistência da história do Brasil, os anônimos, os excluídos e
aqueles que não fizeram parte, durante muito tempo, da história oficial. Versos
como “Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento” e “Deixa eu te contar/
A história que a história não conta”, que fizeram deste samba-enredo um dos
mais críticos dos últimos carnavais populares do Rio de Janeiro, dialogam com a
mobilização que os indígenas protagonizaram no ano 2000 contra a história
oficial que naquele momento excluía sua importância, sua resistência e o seu
sofrimento. Um samba-enredo que, ao contrário do que se fez por décadas,
exaltou “Mulheres, tamoios, mulatos”, reivindicando o lugar dos negros, das
mulheres e dos indígenas na história do Brasil.
Sendo
assim, comemorar “o descobrimento do Brasil” é ignorar a história dos indígenas
que viviam antes da chegada dos europeus e dos africanos que foram trazidos como
escravizados, e sua longa história de resistência à invasão de suas terras e à
sua escravidão.
Propondo um diálogo entre o que é o saber histórico escolar hoje, o que foi construído como história oficial na maior parte da história do Brasil e o samba-enredo da Mangueira desse ano de 2019. Boa semana a todos!
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