O
Carnaval é uma festa popular que tem suas origens na Idade Média europeia, mas
que se tornou um fenômeno de massas no Brasil contemporâneo. O Carnaval é a
vida festiva do povo; uma espécie de liberação do cotidiano dominado pelas
hierarquias sociais e pelo trabalho alienado, o trabalho realizado unicamente
para garantir o que comer, para pagar as contas.
O
Carnaval é parte da cultura popular. Na Idade Média, os carnavais populares eram
o oposto das festas oficiais da Igreja e do Estado feudal, dos grupos sociais
dominantes e das instituições que representavam o seu poder. Na festa de
Carnaval reinava um contato livre e familiar entre os indivíduos, de acordo com
o estudioso Mikhail Bakhtin. Para Bakhtin, isso fazia parte da “visão
carnavalesca de mundo”. Nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, é comum também
essa informalidade entre aqueles que brincam o Carnaval, rompendo com as
barreiras das hierarquias sociais predominantes no mundo do trabalho e na vida
social nos outros dias do ano. O Carnaval é jogo, é lúdico, é a festa da
liberdade; nos dias em que dura o Carnaval um servo pode ser um rei, um homem
da lei pode ser um pirata, toda mulher pode ser uma rainha na avenida, um homem
tímido pode ditar o ritmo da festa integrando a bateria de um bloco de carnaval
ou de uma escola de samba. A lógica do carnaval é oposta à lógica da
produtividade que domina o mundo do trabalho; é a lógica das coisas ao avesso. São
dias de alegria em que pessoas comuns podem se fantasiar e brincar de ser outra
pessoa, até mesmo outros seres, bruxos, bruxas, super-heroínas e super-heróis.
No
Rio de Janeiro o Carnaval é marcado pela cultura negra, com a forte presença do
samba. A cultura negra tem grande importância na vida cultural da população do
Rio de Janeiro. O samba carioca é hoje patrimônio cultural imaterial nacional.
O Dossiê do IPHAN “Matrizes do Samba no Rio de Janeiro” apresenta o samba como
“fruto de ricas tradições africanas e afro-brasileiras”. O samba carioca se
originou na Pedra do Sal, no Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de
Janeiro, no início do século XX. Mais tarde, a população negra marginalizada
pela política do prefeito Pereira Passos, que promoveu a remoção da população
daquela região com sua reforma urbana, passou a se reunir na casa da baiana Tia
Ciata, na região da Cidade Nova. Os sambas-enredo, marca do Carnaval do Rio de
Janeiro, eram vistos pelo compositor Ismael Silva como formas de comunicação
com as massas. O samba-enredo é instrumento de transmissão das tradições
africanas e da cultura popular, de educação do povo e uma forma de contato da
maioria da população com sua própria história. Resumindo, tem um caráter não só
de divertimento, mas pedagógico.
Os
temas dos sambas-enredo são os mais variados. A escola de samba Vila Isabel já
homenageou Zumbi dos Palmares e cantou a abolição da escravidão no samba-enredo
Kizomba, festa da raça (1988): “Valeu
Zumbi!/ O grito forte dos Palmares/ Que correu terras, céus e mares/
Influenciando a abolição/ Zumbi valeu!/ Hoje a Vila é Kizomba/ É batuque, canto
e dança/ Jongo e maracatu”. Tratando da exploração de nossos dias, a escola de
samba Paraíso do Tuiuti em samba-enredo mais recente, Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? (2018), trouxe os seguintes
versos: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu Paraíso é meu bastião/ Meu
Tuiuti, o quilombo da favela/ É sentinela na libertação”. A escola de samba
Império Serrano já cantou em homenagem à luta dos sem-terra no samba-enredo E verás que um filho teu não foge à luta (1996):
“O povo diz amém/ É porque tem/ Um ser de luz a iluminar/ O moderno Dom
Quixote/ Com mente forte vem nos guiar/ Um filho do verde esperança/ Não foge à
luta, vem lutar/ Então verás um dia/ O cidadão e a real cidadania/ Quero ter a
minha terra, ô ô ô/ Meu pedacinho de chão, meu quinhão/ Isso nunca foi segredo/
Quem é pobre tá com fome/ Quem é rico tá com medo [...] Eu me embalei p´ra te
embalar/ No balancê, balancear/ Vem na folia/ Chegou a hora de mudar/ O meu
Império vem cobrar democracia”. Mas não é só de crítica social que são feitos
os grandes sambas-enredo. Carnaval é jogo, é brincadeira, é alegria e a escola
de samba União da Ilha já trouxe isso tudo para o desfile de escolas de samba
com um samba-enredo sobre a infância e a brincadeira, o samba É Brinquedo, É Brincadeira, a Ilha vai
levantar poeira (2014): “Hoje a Ilha vem brincar, amor!/ Vem sorrindo
cirandar que eu vou/ Dar meia volta, volta e meia no seu coração/ Ser criança
não é brinquedo não!/ Levanta a poeira/ Vem nessa brincadeira que eu quero ver/
Nesse baú da memória/ São tantas histórias é só escolher [...] Perder ou
ganhar, ganhar ou perder/ Se conectar, jogar e aprender/ Um super-herói pode
ser você”. A União da Ilha conta ainda com outros dois grandes sambas – É Hoje, de 1982, e O Amanhã, de 1978. O samba É
Hoje celebra a própria festa do Carnaval e apresenta elementos da cultura
negra e das tradições africanas e afro-brasileiras: “A minha alegria atravessou
o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ No maior show da
Terra/ Será que eu serei/ o dono desta festa um rei/ No meio de uma gente tão
modesta/ Eu vim descendo a serra/ Cheio de euforia para desfilar/ O mundo
inteiro espera/ Hoje é dia do riso chorar/ Levei o meu samba/ Pra mãe-de-santo
rezar/ Contra o mau olhado/ Carrego o meu Patuá [...] É hoje o dia da alegria e
a tristeza/ Nem pode pensar em chegar”. E diz o samba O Amanhã: “Como será o amanhã/ Responda quem puder/ O que irá me
acontecer/ O meu destino será como Deus quiser/ A cigana leu o meu destino/ Eu
sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que
será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o mal-me-quer/
Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem
zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz/ Sempre feliz”. Nos sambas-enredo
sempre são cantadas a liberdade e a alegria e mesmo a crítica social vem em
ritmo de festa em oposição à seriedade que domina os demais dias do ano, no
trabalho, na política e nas relações sociais mais formais.
Escrevi esse texto para trabalhar no 7 ano. Como o ano no Brasil começa, na prática, com o Carnaval, que sempre ocorre em fevereiro ou março, tendo uma grande importância cultural na nossa sociedade; considerando a forte presença da cultura negra no Carnaval do Rio de Janeiro e sendo lei desde 2003 trabalhar a história e a cultura dos africanos e dos afro-brasileiros nas escolas; e considerando ainda que a matéria do 7 ano se inicia com Idade Média e que o carnaval fazia parte da cultura popular da Idade Média; resolvi fazer essa ponte entre a Idade Média europeia e a cultura brasileira por meio do estudo do carnaval. É uma possibilidade.
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