sábado, 9 de março de 2019

O CARNAVAL NO RIO DE JANEIRO



O Carnaval é uma festa popular que tem suas origens na Idade Média europeia, mas que se tornou um fenômeno de massas no Brasil contemporâneo. O Carnaval é a vida festiva do povo; uma espécie de liberação do cotidiano dominado pelas hierarquias sociais e pelo trabalho alienado, o trabalho realizado unicamente para garantir o que comer, para pagar as contas.
O Carnaval é parte da cultura popular. Na Idade Média, os carnavais populares eram o oposto das festas oficiais da Igreja e do Estado feudal, dos grupos sociais dominantes e das instituições que representavam o seu poder. Na festa de Carnaval reinava um contato livre e familiar entre os indivíduos, de acordo com o estudioso Mikhail Bakhtin. Para Bakhtin, isso fazia parte da “visão carnavalesca de mundo”. Nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, é comum também essa informalidade entre aqueles que brincam o Carnaval, rompendo com as barreiras das hierarquias sociais predominantes no mundo do trabalho e na vida social nos outros dias do ano. O Carnaval é jogo, é lúdico, é a festa da liberdade; nos dias em que dura o Carnaval um servo pode ser um rei, um homem da lei pode ser um pirata, toda mulher pode ser uma rainha na avenida, um homem tímido pode ditar o ritmo da festa integrando a bateria de um bloco de carnaval ou de uma escola de samba. A lógica do carnaval é oposta à lógica da produtividade que domina o mundo do trabalho; é a lógica das coisas ao avesso. São dias de alegria em que pessoas comuns podem se fantasiar e brincar de ser outra pessoa, até mesmo outros seres, bruxos, bruxas, super-heroínas e super-heróis.
No Rio de Janeiro o Carnaval é marcado pela cultura negra, com a forte presença do samba. A cultura negra tem grande importância na vida cultural da população do Rio de Janeiro. O samba carioca é hoje patrimônio cultural imaterial nacional. O Dossiê do IPHAN “Matrizes do Samba no Rio de Janeiro” apresenta o samba como “fruto de ricas tradições africanas e afro-brasileiras”. O samba carioca se originou na Pedra do Sal, no Morro da Conceição, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, no início do século XX. Mais tarde, a população negra marginalizada pela política do prefeito Pereira Passos, que promoveu a remoção da população daquela região com sua reforma urbana, passou a se reunir na casa da baiana Tia Ciata, na região da Cidade Nova. Os sambas-enredo, marca do Carnaval do Rio de Janeiro, eram vistos pelo compositor Ismael Silva como formas de comunicação com as massas. O samba-enredo é instrumento de transmissão das tradições africanas e da cultura popular, de educação do povo e uma forma de contato da maioria da população com sua própria história. Resumindo, tem um caráter não só de divertimento, mas pedagógico.
Os temas dos sambas-enredo são os mais variados. A escola de samba Vila Isabel já homenageou Zumbi dos Palmares e cantou a abolição da escravidão no samba-enredo Kizomba, festa da raça (1988): “Valeu Zumbi!/ O grito forte dos Palmares/ Que correu terras, céus e mares/ Influenciando a abolição/ Zumbi valeu!/ Hoje a Vila é Kizomba/ É batuque, canto e dança/ Jongo e maracatu”. Tratando da exploração de nossos dias, a escola de samba Paraíso do Tuiuti em samba-enredo mais recente, Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão? (2018), trouxe os seguintes versos: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu Paraíso é meu bastião/ Meu Tuiuti, o quilombo da favela/ É sentinela na libertação”. A escola de samba Império Serrano já cantou em homenagem à luta dos sem-terra no samba-enredo E verás que um filho teu não foge à luta (1996): “O povo diz amém/ É porque tem/ Um ser de luz a iluminar/ O moderno Dom Quixote/ Com mente forte vem nos guiar/ Um filho do verde esperança/ Não foge à luta, vem lutar/ Então verás um dia/ O cidadão e a real cidadania/ Quero ter a minha terra, ô ô ô/ Meu pedacinho de chão, meu quinhão/ Isso nunca foi segredo/ Quem é pobre tá com fome/ Quem é rico tá com medo [...] Eu me embalei p´ra te embalar/ No balancê, balancear/ Vem na folia/ Chegou a hora de mudar/ O meu Império vem cobrar democracia”. Mas não é só de crítica social que são feitos os grandes sambas-enredo. Carnaval é jogo, é brincadeira, é alegria e a escola de samba União da Ilha já trouxe isso tudo para o desfile de escolas de samba com um samba-enredo sobre a infância e a brincadeira, o samba É Brinquedo, É Brincadeira, a Ilha vai levantar poeira (2014): “Hoje a Ilha vem brincar, amor!/ Vem sorrindo cirandar que eu vou/ Dar meia volta, volta e meia no seu coração/ Ser criança não é brinquedo não!/ Levanta a poeira/ Vem nessa brincadeira que eu quero ver/ Nesse baú da memória/ São tantas histórias é só escolher [...] Perder ou ganhar, ganhar ou perder/ Se conectar, jogar e aprender/ Um super-herói pode ser você”. A União da Ilha conta ainda com outros dois grandes sambas – É Hoje, de 1982, e O Amanhã, de 1978. O samba É Hoje celebra a própria festa do Carnaval e apresenta elementos da cultura negra e das tradições africanas e afro-brasileiras: “A minha alegria atravessou o mar/ E ancorou na passarela/ Fez um desembarque fascinante/ No maior show da Terra/ Será que eu serei/ o dono desta festa um rei/ No meio de uma gente tão modesta/ Eu vim descendo a serra/ Cheio de euforia para desfilar/ O mundo inteiro espera/ Hoje é dia do riso chorar/ Levei o meu samba/ Pra mãe-de-santo rezar/ Contra o mau olhado/ Carrego o meu Patuá [...] É hoje o dia da alegria e a tristeza/ Nem pode pensar em chegar”. E diz o samba O Amanhã: “Como será o amanhã/ Responda quem puder/ O que irá me acontecer/ O meu destino será como Deus quiser/ A cigana leu o meu destino/ Eu sonhei/ Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante/ Eu sempre perguntei/ O que será o amanhã?/ Como vai ser o meu destino?/ Já desfolhei o mal-me-quer/ Primeiro amor de um menino/ E vai chegando o amanhecer/ Leio a mensagem zodiacal/ E o realejo diz/ Que eu serei feliz/ Sempre feliz”. Nos sambas-enredo sempre são cantadas a liberdade e a alegria e mesmo a crítica social vem em ritmo de festa em oposição à seriedade que domina os demais dias do ano, no trabalho, na política e nas relações sociais mais formais.

Um comentário:

  1. Escrevi esse texto para trabalhar no 7 ano. Como o ano no Brasil começa, na prática, com o Carnaval, que sempre ocorre em fevereiro ou março, tendo uma grande importância cultural na nossa sociedade; considerando a forte presença da cultura negra no Carnaval do Rio de Janeiro e sendo lei desde 2003 trabalhar a história e a cultura dos africanos e dos afro-brasileiros nas escolas; e considerando ainda que a matéria do 7 ano se inicia com Idade Média e que o carnaval fazia parte da cultura popular da Idade Média; resolvi fazer essa ponte entre a Idade Média europeia e a cultura brasileira por meio do estudo do carnaval. É uma possibilidade.

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