segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Férias é pra se divertir ou pra ter prazer?

Férias é pra se divertir ou pra ter prazer? Uma pergunta a princípio sem sentido, afinal, o que nós consideramos divertimentos não são coisas prazerosas? Diversão e prazer não são a mesma coisa? Não, não são. No campo da psicopedagogia, as contribuições de Jean Chateau a respeito do caráter dos jogos infantis afastam a atividade lúdica do conceito de diversão. No livro O Jogo e a Criança, Chateau escreve que o jogo é sério e que não é mero divertimento, aproximando-se a atitude lúdica da atitude estética. Nessa perspectiva, arte e ciência aparecem como sendo frequentemente jogos sérios. De acordo com Jean Chateau, entregando-se ao jogo, à atividade lúdica, é possível abandonar o mundo da necessidade, criar mundos de utopia e realizar-se plenamente. A atividade lúdica, que é uma atividade séria, tem uma importância fundamental no desenvolvimento da inteligência humana. De acordo com esse autor, uma criança que não brinca será um adulto que não sabe pensar. A seriedade do jogo infantil, diz esse autor, não vem da situação, como o patrão que controla o trabalho, em razão de resultados concretos que traz, como salário, próprio da seriedade da atividade prática. Não vem de interesses vitais como a necessidade de comer. O jogo infantil é sério porque nele a criança afirma seu ser. "Se o jogo é sério e pode ir até o ascetismo, é porque ele envolve o ser como um todo, pois é uma manifestação da personalidade total. Melhor dizendo: o jogo é antes de mais nada uma prova. E é por isso que a criança procura um público e se glorifica com todas as suas conquistas". E o que esse autor diz dos jogos adultos? Segundo Jean Chateau: "O jogo do adulto, já dissemos, tem muitas vezes como origem a procura de um relaxamento. Mas não é sempre assim. Frequentemente também joga-se apenas para 'se ocupar', para passar o tempo, porque não se sabe o que fazer. [...] O jogo é então um remédio contra o tédio; é aquele divertimento de que falava Pascal. É a única ocupação do desocupado, do ocioso [...] Há nesse jogo do adulto algo de negativo; ele não tem seu princípio em si mesmo; é um remédio contra o tédio ou contra a fadiga. Ao contrário, o jogo da criança tem seu fim em si mesmo, na afirmação do eu. Vê-se também que os jogos adultos são muitas vezes jogos tristes. Que se compare a atmosfera ruidosa e animada dos pátios de recreação de nossas escolas com a atmosfera que circunda os jogadores debruçados sobre a roleta, ou a dos bailes de sociedade onde se descobre a vaziez triste e tediosa do mundo. Pelo fato de existir somente a título de remédio e contra alguma coisa, o jogo adulto encerra geralmente um desagradável gosto amargo".
Foi uma supresa pra mim quando li isso porque imediatamente me remeteu à Escola de Frankfurt e à definição de Adorno sobre a diversão. Então, o que nos diz a filosofia: "A diversão é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada pelos que querem se subtrair aos processos de trabalho mecanizado, para que estejam de novo em condições de enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização adquiriu tanto poder sobre o homem em seu tempo de lazer e sobre sua felicidade, determinada integralmente pela fabricação dos produtos de divertimento, que ele apenas pode captar as cópias e as reproduções do próprio processo de trabalho. [...] Do processo de trabalho na fábrica e no escritório só se pode fugir adequando-se a ele mesmo no ócio. Disso sofre incuravelmente toda diversão. O prazer congela-se no enfado, pois que, para permanecer prazer, não deve exigir esforço algum, daí que deva caminhar estreitamente no âmbito das associações habituais. O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça [...]". Nesse sentido, diversão é objeto de uma indústria, a indústria do entretenimento, e serve para o relaxamento passivo dos trabalhadores. Diz Adorno: "Divertir-se significa estar de acordo. [...] Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência". Quando ele fala do tema dos hobbies é possível identificar ainda mais claramente a semelhança entre a análise de Chateau e de Adorno sobre o que eles entendiam como sendo divertimento. Adorno, em um dos textos contidos no livro Indústria Cultural e Sociedade, escreve o seguinte: "Eu não tenho qualquer hobby. Não que eu seja uma besta de trabalho que não sabe fazer consigo nada além de esforçar-se e fazer aquilo que deve fazer. Mas aquilo com o que me ocupo fora da minha profissão oficial é, para mim, sem exceção, tão sério que me sentiria chocado com a ideia de que se tratasse de hobbies, portanto ocupações nas quais me jogaria absurdamente só para matar o tempo [...] Compor música, escutar música, ler concentradamente, são momentos integrais da minha existência, a palavra hobby seria escárnio em relação a elas". Novamente aqui aparece a questão da atividade lúdica (que não é diversão ou hobby) como atividade séria e que serve para a afirmação da personalidade do indivíduo. E por que as pessoas precisam recorrer a hobbies e a divertimentos imbecilizantes, superficiais e padronizados para ocupar seu tempo fora do trabalho, para "matar o tempo" (Meu Deus, que expressão terrível para algo tão precioso como a vida, e que desperdício simplesmente gastar inutilmente - do ponto de vista da afirmação do ser - o tempo de vida e a energia vital!)? Segundo Adorno, é a falta de fantasia que deixa as pessoas desamparadas no seu tempo livre. O tédio existe porque as pessoas não têm autonomia, porque suas vidas são determinadas pela divisão do trabalho, e porque nelas foi mutilada a capacidade de imaginação. "Sempre que a conduta no tempo livre é verdadeiramente autônoma, determinada pelas próprias pessoas enquanto seres livres, é difícil que se instale o tédio [...] Se as pessoas pudessem decidir sobre si mesmas e sobre suas vidas, se não estivessem encerradas no sempre-igual, então não se entediariam". 
Mas e o lúdico? Então está condenado a permanecer perdido em algum lugar da infância, uma espécie de Paraíso perdido? Embora a Bíblia comece com a expulsão do Homem do Paraíso, o Paraíso não está no passado, está no futuro, ou melhor dizendo, é a recordação que aponta para a utopia que irá vingar todos os que tombaram pelo cansaço, pelo tédio ou pela tortura. Marcuse, citando Schiller, escreve que o impulso lúdico tem por objetivo a beleza e por finalidade a liberdade. A infância do homem é o futuro da humanidade. Segundo Marcuse: "Numa civilização autenticamente humana, a existência humana jogará em vez de labutar com esforço, e o homem viverá exibindo-se, em vez de permanecer vergado à necessidade". Para ele: "O livre jogo da imaginação traça e projeta as potencialidades do ser total". As ideias de jogo e de exibição, para Marcuse, se distanciam dos valores da produtividade e do desempenho. Segundo ele, "o jogo é improdutivo e inútil precisamente porque anula as características repressivas e exploradoras do trabalho e do lazer; 'joga, simplesmente', com a realidade". Em Eros e Civilização, Marcuse não deixa de denunciar, no entanto, a "servidão voluntária". Numa passagem das mais belas, Marcuse descreve a vida vazia de todos nós, servos felizes: "Em troca dos artigos que enriquecem a vida deles, os indivíduos vendem não só seu trabalho, mas também seu tempo livre. A vida melhor é contrabalançada pelo controle total sobre a vida. As pessoas residem em concentrações habitacionais - e possuem automóveis particulares, com os quais já não podem escapar para um mundo diferente. Têm gigantescas geladeiras repletas de alimentos congelados. Têm dúzias de jornais e revistas que esposam os mesmos ideais. Dispõem de inúmeras opções e inúmeros inventos que são todos da mesma espécie, que as mantêm ocupadas e distraem sua atenção do verdadeiro problema - que é a consciência de que poderiam trabalhar menos e determinar suas próprias necessidades e satisfações". E aqui, sem querer me alongar mais em citações, gostaria de discutir o conceito de felicidade. Para Marcuse, "a felicidade não está no mero sentimento de satisfação, mas na realidade concreta de liberdade e satisfação. A felicidade envolve conhecimento: é a prerrogativa do animal rationale. Com o declínio da consciência, com o controle da informação, com a absorção do indivíduo na comunicação em massa, o conhecimento é administrado e condicionado. [...] E como o conhecimento da verdade completa dificilmente conduz à felicidade, essa anestesia geral torna os indivíduos felizes". 
Mas é na psicanálise que podemos encontrar a clara definição do conceito de prazer. O conceito freudiano de princípio de prazer designa o programa do indivíduo, o desenvolvimento do indivíduo é dirigido pela satisfação da felicidade. Na medida em que o princípio mental do prazer cede lugar ao princípio de realidade o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo e o prazer passa a ser adiado em nome de ganhos mais duradouros. O princípio da realidade é o princípio que rege a civilização. Enquanto a função da razão se desenvolve no ser humano sob o princípio de realidade, a atividade mental da fantasia permanece livre do domínio do princípio da realidade e vinculada ao princípio de prazer. Em O mal-estar na civilização, Freud trata da questão da sublimação dos instintos como uma técnica para afastar o sofrimento. Para Freud: "Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual". A arte e a ciência são formas de sublimação, de deslocamento de libido, canalização ou reorientação dos desejos. Nesse sentido, a civilização não é obra apenas do princípio de realidade e da razão, mas também um processo a serviço de Eros, o instinto de vida. A sublimação está na raiz do desenvolvimento cultural das sociedades humanas. 
Compreender conceitos como prazer, lazer, diversão, lúdico, felicidade não são questões menores, são vitais para reorientarmos nossa existência no sentido de uma vida propriamente humana. Alguém poderia contestar um longo texto baseado em outros textos de Freud, Adorno, Marcuse e Jean Chateau. Pois bem. Podemos, então, ir mais fundo e olhar atentamente, sem medo, para aquilo que está bem diante de nós. Se você olhar bem de perto o sorriso de Mona Lisa de todo trabalhador de férias, você desvenda o seu mistério: por trás dele se esconde o desespero do trabalhador alienado, do sujeito que espera todo o ano pelas férias, quer mesmo que o tempo passe mais depressa, e com isso, tenha ele consciência disso ou não, que sua vida passe mais depressa e acabe mais depressa também. É um desejo tão forte de se libertar dos grilhões do trabalho que a hipótese de uma vida mais curta (ou pelo menos o que é experimentado como vida pelo indivíduo, sendo os dias de trabalho o pedágio que é obrigado a pagar para viver) não é tão ruim, se for levá-lo àquela parcela de vida propriamente humana chamada férias. Mas quando chegam as aguardadas férias, o indivíduo está tão massacrado em sua subjetividade, tão vazio em imaginação, tão sem forças para criar autonomamente as atividades enriquecedoras e humanas pelas quais anseia o seu espírito no tempo livre conquistado, que se entrega ao que a indústria do entretenimento tem a lhe oferecer na TV, no cinema, em shows, todos produtos culturais da moda, e no ano seguinte, haverá outros como eles, levemente diferentes, mas essencialmente idênticos. Além disso, podem gastar o seu tempo com qualquer passatempo que aparecer, pois ao finalmente se deparar com o tempo de sua vida só para si, o indivíduo massacrado o ano inteiro pelo trabalho e pelas contas só pensa em descansar sua cabeça. A diversão e o lazer são o descanso do escravo, o prazer está naquilo que não se pode pagar, no sexo com quem se ama, no contato com a natureza e em brincar com seu filho. E, no caso do professor, até estudar nas férias é parte de seus prazeres. Isso porque quem gosta de ensinar ensina aquilo que lhe dá entusiasmo, quer discutir com outros o conhecimento ou a experiência que o apaixonou. Contra o remédio amargo da diversão que existe para "matar o tempo" se insurge o verdadeiro prazer, aquilo que é verdadeiramente humano, verdadeiramente natural, verdadeiramente livre. As suas férias são, neste mundo de alienação, a sua única porção de vida em que você pode reinventá-la, realizando, na medida do possível, o seu ser, dentro dos limites possíveis da felicidade e da liberdade nessa existência. Prazer, sou historiador, escritor e amo escrever, não é hobby, não é passatempo, é minha existência autêntica socialmente negada. Qual é a sua?


Rafael Rossi

2 comentários:

CONSUMO, CONSUMISMO E OBSOLETISMO PLANEJADO

              No vídeo “A História das Coisas”, sucesso na internet visto por milhões de pessoas de todo o mundo, são apresentados os conc...